,Um conto de Heloísa Cardoso e 3 imagens de Andréa Tolaini

Por Heloísa Cardoso e Andréa Tolaini.

Revisão: Aline Machado.

Peixe Engole - Da Obra Andréa Tolani
Peixe Engole – Da Obra Andréa Tolani

Estimação

“Como é essa tontura que você sente?” perguntou o médico.

Ela recordou-se de quando seu peixe morreu por ter sido exageradamente alimentado. Não conseguia se lembrar do nome do bicho. Ela nomeava tudo, nunca se esquecia do nome de ninguém. Mas esqueceu o nome do peixe. Talvez para descaracterizá-lo e se livrar do peso de ter cometido aquele assassinato sem intenção.

Tinha uns 6 ou 7 anos e alimentava o peixe com ração todos os dias. Quando seu pai trocava a água do aquário, o peixe tentava fugir. Uma vez ele pulou no ralo da pia, seu pai abriu o encanamento para resgatá-lo, e milagrosamente conseguiu. Os esforços da família eram muitos, e aquele pequeno peixe, com uma expectativa baixíssima de vida, durou mais de um ano. Baixíssima porque a vida dele era insalubre desde a origem.

Baleia - De obra de Andréa Tolani
Baleia – De obra de Andréa Tolani

O peixe era um brinde de uma rede de fast food e veio dentro de um saquinho com água, como se fosse um brinquedo. Hoje em dia é provavelmente ilegal dar animais como brinde às crianças. Afinal, nunca se sabe onde está o pequeno psicopata entre elas, esperando a oportunidade para torturar o primeiro de muitos seres. Mas esse não era o caso daquela menina. Ela queria mesmo era encher seu peixe de amor – e de comida, pois comida é amor. O que ela não sabia é que havia um limite. Sabia menos ainda que o peixe era estúpido, compulsivo, e não entendia a hora de parar. O fato é que, em uma noite, ela se arrumava para sair com seus pais e viu restos do peixe no aquário. Perguntou o que havia acontecido e, por algum motivo completamente incompreensível, seus pais decidiram contar-lhe a verdade em absoluta crueza. “Ele explodiu de tanto comer.”

Entre a adolescência e a vida adulta, contou ao namorado sobre esse episódio e ele disse que isso era completamente normal. Que existiam estudos psicológicos específicos sobre meninas que matam seus peixes por causa de excesso de instinto materno.

Periquita - Da Obra Andréia Tolani
Periquita – Da Obra Andréia Tolani

Ela acreditou cegamente, pois acreditava em qualquer coisa que ele dizia. Alguns anos depois, descobriu que o ex-namorado era um mentiroso patológico e que essa provavelmente foi mais uma das mentiras dele. Ela tem uma teoria, inclusive, de que aquele homem foi uma dessas crianças que não podem receber um peixe de presente. Ele também mataria, mas não por amor. E mataria sem culpa, ao contrário dela, que conviveu o resto da vida com a assombração desse peixe vingativo, que agora parecia estar dentro de seu corpo. Nadando em seu sangue, rondando seus órgãos.

“Minha tontura é como se, de repente, um peixe começasse a nadar muito rápido dentro da minha cabeça”, respondeu.

Agradecemos pela leitura do nosso conto.

,Sobre as autoras:

Heloísa Cardoso é dramaturga, escritora, diretora teatral e arte-educadora. Desde 2013 faz uma pesquisa cênica sobre imaginário feminino com o @sensoriocena. É mestra em direção pela Universidade de Essex, na Inglaterra, onde se aprofundou no trabalho de Sarah Kane, sua principal referência na dramaturgia. Também estudou teatro russo na GITIS, em Moscou. Das 7 peças que escreveu, encenou todas, e tem 2 publicadas (MANUAL doispontos Insaciável barra Mórbida e A Encomenda). Durante a pandemia, iniciou um projeto de escrita de cartas em @aremetente. Atualmente também pesquisa a escrita no terror (roteiro e literatura). Ama felinos e tem dois gatinhos lindos.

Instagram: @cardosohelo

Andréa Tolaini é artista visual pela Escola Panamericana de Artes (2013) e ESPM, (2207). Cursou Desenho e Ilustração na University of Arts – Londres (2012). É pós-graduada em mídia, informações e cultura latino-americana, pelo Cellac-ECA-USP (2009). É autora de dois livros escritos e ilustrados pela mesma: Mã, por mais doce que você fosse seu ventre (2018) e; Seiva (2018). Desenvolveu projetos de poesia visual para SESC Santo André (2018), Coletivo Feminista Saúde e Sexualidade (2019) e ministrou oficinas de pintura e desenvolvimento criativo na Universidad Carlos III em Madrid (2017), Unip Vergueiro (2015), SESC Consolação (2015), Sesc Santo André (2018), Can Viés em Barcelona (2017). Participou da exposição coletiva Marias de Portugal, Espanha e São Paulo (2017-2018) Foi patrocinada pela Black Jaguar Foundation para a criação de uma obra para o projeto de proteção da onça pintada Jaguar Parade que seguiu em exposição pelas ruas de São Paulo e Brasilia (2019). Tem murais feitos no SESC Santo André, Mídia Ninja, Escola Amorin de Lima entre outros lugares públicos e privados. Foi criadora e coordenadora do projeto Ateliê coletivo na Nave do Mídia Ninja (2020 – projeto interrompido pela pandemia).

Instagram: @andrea.tolaini

Mini-doc – Permanecia: https://youtu.be/T0JuzSBSsck

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