,Documento Race – 3 ou 4 interrogações para Gustavo Paso

Por Marcio Tito.

O diretor Gustavo Paso
O diretor Gustavo Paso

Antes da máscara e dos tantos cuidados sanitários, quando o teatro ainda não nos exigia uma tela diante dos olhos e antes da cena, numas de procurar os produtos teatrais mais diversos possíveis, soube do trabalho de uma companhia carioca que havia experimentado (e ainda experimentava) algumas dramaturgias de David Mamet.

David Mamet, roteirista incapaz de uma obviedade, autor de clássicos como Os Intocáveis e O destino bate à sua porta… no teatro? Que bicho é esse?

Lembro daquela noite deliciosamente morna, lembro do café rápido no saguão do Espaço Viga. Lembro de, antes da peça, ficar de papo com o também dramaturgo (e amigo para qualquer plateia) Sérgio Roveri.

Aquele seria um espetáculo que me marcaria para sempre. Refinado. Amplo. Verbal. Inteligente (no sentido inteligente da palavra).

Um texto que soava como um palavrão. Uma direção de obsessivo. Constrangimento e reflexão cercando plateia, elenco e quem mais quisesse ver.

O elenco dando cinco, seis, sete saltos mortais (antes mesmo de dizer boa noite).

E, dentro da raríssima experiência daquele espetáculo, como se não bastasse o ritmo das cenas absolutamente paradoxais, cada mão que pedisse a palavra no bate papo pós-peça, num desesperado exausto, nos faria baixar os olhos e rezar para ser a última questão da noite – porque pensar dói. Ver dói. Saber dói.

“Race – um espetáculo de beleza teatral e agonia social.

Ou a emergência das questões que montam e remontam os grupos humanos”.

São muitos os possíveis subtítulos para uma matéria sobre a obra. Mas a palavra do diretor e idealizador Gustavo Paso, em três ou quatro rápidas questões, funcionará como esteio e flecha direto nas interrogações.

Marcio Tito – Quando você elaborou o projeto de montagem dessa dramaturgia, quando escolheu o texto e imaginou o que adaptaria na dramaturgia – o que é que você não gostaria que a obra fosse? O que Race nunca deveria ser? Quais os riscos?

Gustavo Paso – Quando eu escolhi… não tinha ideia do que adaptaria, mas sabia que muita coisa estava um pouco longe do meu entendimento. Coisas culturais, da cultura americana. Eu via isso claramente.

Fizemos uma leitura quando a companhia (Cia Epigenia) dirigia o Teatro Glaucio Gill (2014). Fizemos um ciclo sobre a obra do Mamet, fizemos debates e lemos alguns textos. Durante dois meses nos concentramos no Mamet.

Engraçada essa pergunta… Sobre o que eu não queria! Eu não queria era ser maniqueísta de jeito nenhum! Tínhamos passado por uma experiência de muito sucesso com Oleanna.

Oleanna, acho, foi o texto mais perfeito que dirigi. Foi um texto onde não precisei fazer nada com o texto, ao contrário de Race e Hollywood, que são peças que você precisa “verter” para a nossa cultura. Os exemplos, os jogos de inteligência do Mamet, que tem muito dos Estados Unidos, precisamos verter tudo isso para a nossa cultura.

Por exemplo “a melancia”, eu tive que cortar do texto. Porque não existia um referencial brasileiro para a “felicidade” dos escravos quando recebiam essas melancias (que eram baratas). O Brasil tinha outra lida com isso. As duas culturas lidavam de uma maneira ruim, enfim…

O que eu não queria era que fosse um trabalho maniqueísta. Por isso eu citei o Oleanna. Foi um grande preparo para que eu estivesse bem defendido em relação a isso.

Vou te dizer algo muito sincero: Eu acho que poucas pessoas dirigiriam Race da maneira como eu dirigi (em relação às questões colocadas). Foi o que mais me policiei.

Respondendo: Race não deveria ser partidário, de maneira nenhuma! E os riscos são grandes. Foi um trabalho muito difícil. O Race me ensinou muita coisa que eu não enxergava, que eu não sabia.

Se Oleanna foi o texto mais “pronto” que eu dirigi… Race foi o trabalho onde eu mais aprendi socialmente sobre uma questão. É como se diz no começo da peça: Não há nada que um branco possa dizer a um negro sobre o assunto raça.

O mundo mudou muito de 2016 para cá. Houve um aprofundamento da questão (apesar de ainda não ser o que “tem que ser”, mas estamos em outro lugar). Estamos em um lugar mais profundo. De conhecimento. Os próprios atores negros do elenco estão mais esclarecidos, mais sábios sobre a questão.

Me lembro que os movimentos negros não gostavam de brancos participando de certos debates. Hoje, parece, os movimentos negros veem a necessidade do branco participar. Isso mudou. Mudou bastante.

Mudou também o “afrodescendente” pra “preto”. Inclusive, mudamos isso na peça…

Marcio Tito – Esse jogo com infinitos pontos de força é nítido! Só acho graça porque essa é a essência do teatro! Essa máquina de contradições! No entanto precisou ser um projeto pensado…

Gustavo Paso – Eu fui para o Mamet porque encontrei “eco” na dramaturgia dele. É por isso que eu leio textos e não passo da terceira ou da quarta página!

Marcio Tito – Algum autor brasileiro que você perceba estar produzindo com esse “estilo” de voltagem? Quero dizer, produzindo com a contradição acima dos outros efeitos da cena? Caso não, qual o ponto em que as dramaturgias tradicionalmente escorregam nesse sentido?

Gustavo Paso – Difícil responder essa pergunta. Dificilmente leio um texto que não vou dirigir. É algo meu! Por exemplo, vi uma peça do Jô e adorei o texto. Que pena! Agora esperar tantos anos…

Outro dia eu estava conversando com a Inês Vianna, estávamos fazendo um curso juntos, e eu perguntei há quantos anos ela dirige. Eu, Gustavo, dirijo há 20. A Inês dirige há 10.

Nesse tempo todo, é inacreditável, mas nunca nos sentamos para falar de teatro. Sabe? Um evento. Como os que o CCBB fazia há anos atrás. O teatro não se conecta com o teatro. estamos todos muito distantes.

Não vejo gente jovem, ou consagrada, ou os antigos, sentando para falar de teatro. Não rola.

Há uns 4 ou 5 anos eu propus uma mesa de diretores com “novos” dramaturgos para um Festival de teatro. O próprio festival não se interessou… Precisamos nos conectar com gente que não faz parte no nosso ciclo de conhecimento, claro que posso ligar para um autor e pedir um texto… Mas e quem não sei nem que existe? Ou o pessoal de São Paulo. Gente que a gente “não conhece”. Isso que eu quero dizer: Os textos novos não chegam na nossa mão.

Uma vez, falando com a Julia Spadaccini, e eu não quis ser grosso, mas pareceu grosso – eu disse que não chega texto brasileiro com a carpintaria e a inteligência do Mamet. Com a inteligência técnica. Um texto de dois atores, sem nada, sem tiro, sem apelação, sem cocaína! No Mamet a ação é o texto. A palavra.

É difícil…

Só tenho interesse em coisas que ninguém fez. Dificilmente leio um texto que já estreou. Tentei fazer contato com 3 dramaturgas paulistas, só para ler coisas novas, mas é tão difícil.

Os dramaturgos estão escrevendo roteiros pra Globo, pra sobreviver mesmo… dramaturgo brasileiro, ainda mais … de uma nova geração, como vai se sustentar com teatro no Brasil? Nós não “perdemos” só atores para a Tv, perdemos os dramaturgos também. Como que eles vão conseguir ficar em casa escrevendo pra teatro como ofício?

Marcio Tito – O formato e a permanência do debate após a peça, ao longo das temporadas, desejam o que? Isso que você gostaria de ver nos debates, de fato acontece?

Gustavo Paso – Os debates começaram no Oleanna. Era uma necessidade que tínhamos, muito grande, pela dimensão do texto. Justamente pela questão “do jogo mudar” em cena. Isso gerava uma curiosidade muito grande (com relação ao que o público teria para dizer).

Foi um grande acerto. As pessoas saíam do Oleanna muito aflitas por falar. Oleanna teve quase 300 apresentações, e fizemos debate em todas elas.

Quando comecei a dirigir o Race, que toca em outro tipo de assunto, mais polêmico ainda, porque toca no racismo, durante os ensaios, por ter um elenco com negros e brancos, eu trabalhei muito com a história de vida deles, dos atores do elenco.

Eu converso muito. Meus primeiros dias são conversas longas. Eu me lembro de dizer aos atores “vocês tem certeza de que querem fazer essa peça? Vai ter debate, vai ser forte”.

Eu, branco, heterossexual, que estou na linha privilegiada, e tendo consciência disso, e com mais consciência ainda por ter dirigido o Race, tive um aprendizado indizível. O Falcão ouviu muita coisa. Os atores todos que fizeram “o cliente” também.

Quando o assunto era polêmico, relacionado à raça, eu tinha ali um ator e uma atriz para falarem sobre esse assunto. Eu me guardava na minha humildade. Mas, quando algo se referia ao trabalho estético, ao cenário, aí eu tinha uma opinião certa. Mas, sobre assuntos polêmicos, eu me resguardava na minha ignorância e respeito sobre o assunto.

O principal motivo do debate é “todo mundo aprender”. É algo da companhia, muito à exemplo do trabalho do Fagundes. Todo espetáculo ter essa troca com o público, para reforçar mesmo. É um ganho. Mas o ganho maior é o assunto, os assuntos, o debate.

No Hollywood fizemos um pouco, mas o Hollywood é o trabalho mais sutil. Noventa por cento dos homens não via o machismo, e só as mulheres na plateia horrorizadas. Então era muito difícil um debate assim.

Uma das mais instigantes montagens do teatro brasileiro - RACE
Uma das mais instigantes montagens do teatro brasileiro – RACE

Marcio Tito – Muito legal perceber o debate como uma peça tão fundamental na construção dos artistas que constroem a obra. É bonito. Olha, eu ia terminar por aqui, mas fica irresistível perguntar se algum debate chegou a mudar a cena, mudar mesmo algo na peça. Essa é uma curiosidade quase final rs. Suas respostas são muito completas. Sua voz carrega uma mastigação do que é dito. É muito interessante…

Gustavo Paso – Obrigado! Olha, eu participei de quase todos os debates, em quase todas as montagens. Mas nunca mudou nada. Acho que mudaria se tivéssemos feito um trabalho mais tendencioso. E foi tudo o que não fomos. Não fomos parciais. O Mamet oferece um texto onde você pode ser parcial, mas procuramos não ser.

O assunto é tão complicado, e os debates do Race focavam muito no racismo estrutural. Quando ao assunto é muito complicado, acho, o espetáculo fica um pouco de lado. E é pra isso mesmo. Para sermos uma sociedade mais unida ao redor de causas importantes para que a sociedade se equilibra. Somos uma companhia de teatro humanista… É a nossa premissa!

Trecho do comentário crítico de Miguel Arcanjo Prado:

“Race” é uma peça altamente crítica e complexa, fugindo da ideia de se criar dualismos ou heroísmos. Muito pelo contrário. Sem ser didático, o drama mostra que o racismo e o machismo são preconceitos que caminham de mãos dadas, explicitando de forma categórica o lugar de dupla opressão sofrida pela mulher negra.

A obra ainda demonstra que brancos e negros, homens e mulheres, podem, de maneira conjunta, fazer um trabalho que enfrente o racismo e o machismo.

“Race” é um dos espetáculos mais inteligentes e com elenco mais afinado dos últimos tempos. Do tipo obrigatório de se ver.

https://www.blogdoarcanjo.com/2017/04/18/critica-visceral-race-mostra-que-racismo-e-machismo-andam-juntos/

Anexo – A advogada Mariana Serra, a convite do site Deus Ateu, transportou algumas questões centrais da dramaturgia para um olhar menos estético e mais científico, se entendermos o trabalho dos advogados e juízes como um tema possível de ser categorizado num plano cada vez mais técnico.

Os advogados, a justiça e o direito no teleteatro Race.

Por Mariana Serra.

Na dramaturgia “Race”, resta evidente que o objetivo dos advogados não é a busca pela justiça em favor do acusado-cliente. Os advogados querem vencer. E vencer significa prestígio perante à sociedade; significa provar ao mundo, através da validação invisível da vitória, o quanto são bons. Talvez os melhores… 

A verdade dos fatos? Pouco importa. Os direitos do cliente-acusado? Esses sequer são discutidos… 

A observação supra se confirma quando os advogados afirmam logo no início do espetáculo que somente aceitarão representar o personagem acusado (cliente em potencial) se, após uma análise minuciosa das peças acusatórias e das provas, identificarem que existem lacunas no conjunto probatório capazes de causar dúvida quanto à ocorrência do crime. 

Além de que, os advogados exigem que o cliente revele a eles as mazelas de sua alma, seus piores pecados, enquanto decidem se aceitarão ou não o caso.

No mais, os próprios advogados acusam o cliente de ter cometido o delito e o julgam culpado. 

A justiça em favor do cliente não tem lugar de fala na discussão. 

Entretanto, mesmo que estejamos falando de ficção é necessário esclarecer que o comportamento representado pelas personagens-advogados não condiz com o papel do advogado na vida real.

O advogado, primeiramente, deve ser alguém em quem o cliente pode confiar. E para isso, deve passar confiança, segurança e jamais julgar o cliente. O advogado é um ouvinte atento e analítico, que escuta para depois orientar. Acusar ou julgar, jamais!

A acusação cabe ao promotor nas ações públicas. E julgar, cabe ao juiz. A função do advogado no processo penal é agir em defesa dos direitos do acusado, para que esse tenha uma sentença justa, absolutória ou condenatória.

E para isso, o advogado utiliza o direito como instrumento para alcançar a justiça no caso concreto, seja o cliente inocente ou culpado.

Sim. Até aqueles que confessam perante as autoridades ter praticado delitos ou que são condenados têm direito a defesa e julgamento justos.

Os extraordinários Quirino e Falcão - para tela e palco
Os extraordinários Quirino e Falcão – para tela e palco

Todo acusado tem direito à defesa, seja ele culpado ou inocente. E essa premissa, além de bela, justa e moral está prevista no ordenamento jurídico.

Em uma situação em que o acusado é inocente – o que infelizmente é comum ocorrer, visto que a justiça (máquina judiciária) é falha, o advogado deve usar exaustivamente todos os meios legais para provar a inocência do cliente e assim tentar alcançar a justiça.

Entretanto, na hipótese em que o acusado realmente cometeu o crime, havendo provas cabais suficientes para condená-lo, o advogado deve usar o direito para obter a justiça no sentido de garantir que o acusado receba uma pena justa ao caso concreto, ou seja, para que ele não receba uma pena mais rígida ou mais gravosa do que a prevista no ordenamento jurídico e adequada ao caso concreto.

Na peça, e na vida real, o exercício mental de reconstituir os fatos é importante. A atenção a cada detalhe é crucial. A “sacada” do advogado Jack em relação às lantejoulas vermelhas do vestido – se havia lantejoulas espalhadas no quarto, é fantástica! E talvez seria a “salvação” do cliente, porque não se condena quando há dúvida sobre a ocorrência do crime. No Brasil, pelo menos, a dúvida sobre a ocorrência do delito é hipótese de absolvição. 

Contudo, antes de atentar-se às lantejoulas, os advogados devem dar atenção ao cliente. Porque é assim que se começa a justiça, com atenção, com humanidade. O prestígio e o reconhecimento da profissão são consequências de um bom trabalho. 

Por fim, que fique claro que justiça para o direito é quando cada operador da justiça exerce com excelência seu papel: promotor acusa se houver prova da existência do crime e indícios de autoria ou opina sobre a absolvição do acusado; o advogado ouve o acusado e usa exaustivamente todos os instrumentos do direito para sua defesa, a fim de obter a absolvição ou a aplicação de uma pena justa; e o juiz julga, de forma imparcial, com base nas provas trazidas ao processo por acusação e defesa, utilizando seu livre convencimento, que deve ser motivado, para proporcionar a segurança jurídica e, principalmente, garantir a justiça.

Agradecemos pela leitura do nosso texto.

,Sobre os autores e entrevistado:

Gustavo Paso: O Diretor da peça e fundador da Cia Teatro Epigenia, que completa 21 anos de atividade, Gustavo Paso, também foi indicado aos prêmios Shell e APCA, único diretor agraciado com indicação nos dois prêmios em 2019, ano seguinte a terceira peça da Trilogia Mamet, ambos em SP (2018).

Instagram: @gustavo_paso

Miguel Arcanjo Prado é jornalista, mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela USP e bacharel em Comunicação Social pela UFMG. Eleito pelo Prêmio Comunique-se um dos melhores jornalistas de Cultura do Brasil. É crítico da APCA, da qual foi vice-presidente, e passou pelos principais veículos, como Globo, Record, Folha, Abril e Band. Desde 2012 faz o Blog do Arcanjo. Em 2019 criou o Prêmio Arcanjo de Cultura no Theatro Municipal de SP. É Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da SP Escola de Teatro.

Instagram: @miguel.arcanjo

Mariana Serra é advogada; bacharel em Direito pela Universidade São Judas Tadeu (2016) e especialista em Direito Penal e Processo Penal pela Escola Paulista de Direito (2019). Atua nas áreas cível e criminal.

Instagram: @mariserra__

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