,Com prazer, correr mais riscos – Uma entrevista com Pedro Barreiro

Por Marcio Tito.

Pedro Barreiro, artista inquieto e constante. Retrato no Brasil.
Pedro Barreiro, artista inquieto e constante. Retrato no Brasil.

MT – Pedro, quase sempre escrevo durante a noite, ou em trânsito dentro de um carro, ou em público (como que fugindo daquele espaço-tempo). Contudo, porque escrever é como existir, termino me tornando cada vez mais presente no mundo e é desse símbolo que extraio o que tenho produzido em arte.
O meu texto tem estado sempre cheio desses vestígios do espírito, e também talvez por isto eu escreva de modo sentimental tantas vezes. Essas e outras muitas questões que não conseguem formular apenas uma interrogação convidam sua escrita e você a fazerem o mesmo.

Você, meu caro, que foi um dos responsáveis pelo meu primeiro grande espanto no teatro, com “A Angústia Deste Argumento”, aquele autêntico, estranho e exuberante espetáculo do coletivo Sr João – como é que vai?

Qual artista tem aparecido mais vezes nas tuas leituras, qual quadro você tem desejado olhar, qual livro, poema, peça de teatro… Como vai a arte e como é que vai você?

Pedro Barreiro –  Querido Tito,

Pois, já eu não consigo identificar nenhum padrão nos meus hábitos de escrita. Sei que não me imponho qualquer disciplina para essa prática, o que terá decerto as suas consequências formais. Funciono por impulso, escrevendo quando me apetece ou quando me interesso o suficiente por uma ideia que tenha tido para registrar ou desenvolver.

Mas, se seguirmos um entendimento que me é caro quando penso no que pode ser um texto, por exemplo, a minha asserção anterior poderá perder validade. Se alargarmos o entendimento do que é um texto, ao ponto de o podermos considerar como qualquer discurso perceptível, a escrita será a acção de produzir discurso. O que me poderia levar a dizer que estou sempre, ou quase sempre, a ler ou a escrever.

Depois, se metermos a arte ao barulho, o caso fica mais complicado e leva-nos a ter, primeiro, de lembrar a diferença entre estética e poética, sendo a primeira a faculdade de lermos (percebermos, entendermos…) as formas com que o mundo nos vai sendo apresentado, e a segunda como a faculdade de produzimos formas de mundo.

Já a arte é uma coisa que funciona num sistema mais fechado, com critérios de selecção, validação e legitimação mais apertados, ainda que com possibilidades de formulação ilimitadas. É certo que tudo isto são entendimentos provisórios, mas também é certo que me têm sido muito úteis para os objectos de arte que tenho vindo a criar.

De resto, vou bem, na medida do possível. Como toda a gente, estou cansado desta pandemia, mas sem grandes males de que me possa queixar. Continuo a conseguir trabalhar em coisas que me estimulam (o que é um grande privilégio).

Falaste do “Angústia deste Argumento”, o segundo espectáculo que criei e o primeiro que fiz no Brasil, em 2010, precisamente quando nos conhecemos. Esse espectáculo, que criei com o Óscar Silva, teve um papel muito importante no meu percurso.

Estávamos em São Paulo há poucos meses e não tínhamos nada a perder ou a defender, mas tínhamos toda a liberdade para experimentar. Esse é o valor mais importante de todos.

MT – A angústia do presente, embora me faça querer prever um futuro melhor, me coloca um pouco nas coisas “do passado”. Do passado é que vem a minha continuidade para está conversa… Um texto clássico, antigo que seja, do “teatrão”, que te interessaria montar quando os teatros estivessem com seu funcionamento de antes? Caso não ocorra fácil… Qual intuição você perseguiria?

Pedro Barreiro – Eu venho do teatro, mas não trabalho a montar textos teatrais. Não passa por aí a minha relação com o teatro ou com a encenação. Eu enceno espectáculos e não peças literárias. Posso usá-las, na medida em que me possam ser úteis para o que quero de um espectáculo, de uma cena ou de uma performance.

O texto deve servir o espectáculo, não o contrário. Além disso, considero que o melhor que se pode fazer a um texto de literatura teatral é lê-lo, e não necessariamente dizê-lo ou animá-lo. Mas vá, se me apontassem uma arma à cabeça e me obrigassem a escolher um texto antigo para encenar, provavelmente escolheria o Íon, do Platão. Não foi escrito como peça teatral, mas ninguém daria por isso.

Um teatro de liberdade e invenção - Momento do Coletivo Sr. João no Brasil (2014).
Um teatro de liberdade e invenção – Momento do Coletivo Sr. João no Brasil (2014).

MT – O jeito com que você desmonta as coisas que estão imediatamente dadas é o jeito que você aponta para a criação, e isso deixa viva a alma de quem assiste ou troca com sua produção. O que é que um curador tem buscado? Dizer “sim” e dizer “não”… É uma aflição?

Qual sua estratégia para montar uma programação? Caso a realidade prática vá limitar sua resposta, minta com toda tranquilidade.

Pedro Barreiro – Tem buscado dar espaço, visibilidade e oportunidades à diferenciação, à singularidade, à coragem, ao risco, à generosidade… Acima de tudo, tenho procurado fomentar o pensamento crítico e criar dinâmicas que estimulem a convivência de coisas que nos dêem a ver a diversidade do que se anda a fazer no nosso tempo e que não procurem caber em lógicas hegemônicas. Não diria que seja uma aflição dizer que “sim” ou que “não”.

Não é agradável, mas faz parte das responsabilidades que me são confiadas quando estou a programar. O contexto, no lugar que estou a programar (Rua das Gaivotas 6, do Teatro Praga), é muito particular. 

É um espaço muito requisitado onde recebo muito mais propostas do que as que é possível acolher fisicamente. E é mais sensível sendo artista, porque me coloca numa posição em que estou a avaliar o trabalho de colegas, sabendo que vou ter de deixar de fora gente que gostaria de ter lá dentro.

Por outro lado, também acredito que o facto de ser artista e de não me preocupar com ideias de carreira nem em manter-me nos lugares que vou ocupando, faz com que a minha abordagem à programação de um espaço seja diferenciada e que possa, com prazer, correr mais riscos.

De resto, a estratégia não tem grande segredo. É ver o máximo de coisas que consiga. Conversar muito, perceber quem anda por aí, dar sempre carta branca a quem desafio para apresentar um trabalho e deixar claro que não me interessam propostas cujo objectivo seja agradar a programadores ou a públicos.

MT – Nos conta desta sua conexão com estes Íons do Platão. Nos conta se tem sido (ou se vinha sendo) “fácil” achar essas coisas não hegemônicas. Os e as artistas que usam o corpo, em geral, estão tendo boa lida com os  perigos de uma arte que pouco dispara e muito repõe? Artistas fogem da hegemonia com a mesma velocidade que a hegemonia tenta cercar os e as artistas?

Pedro Barreiro – As hegemonias não têm intencionalidade, ou seja, não tentam nada. Elas resultam de comportamentos de indivíduos dotados de intencionalidade, ainda que condicionados por variadíssimos factores, interdependentes e interseccionais.

São os indivíduos, neste caso artistas e demais agentes da arte, que criam e alimentam as lógicas hegemônicas. Mas também são estes indivíduos que podem fazer outras coisas em relação a essas lógicas – como tentar vencê-las, por exemplo – ou até para além delas. 

É isso que me interessa encontrar e fomentar, seja como programador, como artista ou como cidadão. Não é fácil e muitas vezes não se consegue, mas tem valido o esforço.

Sobre artistas que usam o corpo, não conheço nenhum artista que não use o corpo. Se estão lidando bem com “os perigos de uma arte que pouco dispara e muito repõe”, não te consigo dar uma resposta cabal.

A arte é criada por artistas e deles depende para existir, não o contrário. Se ela repõe muito e dispara pouco, a responsabilidade só poderá ser dos artistas que assim a fazem e dos demais agentes que assim a validam, legitimam e financiam.

De resto, os artistas não só são todos diferentes, como vêem perigos em lugares diferentes e lidam com eles de formas diferentes. Eu acredito que, no geral, tentam fazer o melhor que sabem e conseguem. Às vezes dá, outras vezes não dá. Às vezes corre melhor, outras vezes pior. 

Quanto ao Íon, não é uma conexão extraordinária, fiz mesmo o exercício de imaginar que me apontavam uma arma à cabeça e me obrigavam a escolher um texto antigo para encenar e o primeiro de que me lembrei foi esse diálogo do Platão.

Na atualidade, curador e programador na Rua das Gaivotas.
Na atualidade, curador e programador na Rua das Gaivotas 6.

MT – Uma noite, conversando contigo na janela do Rodolfo Vázquez, parei para te perguntar o que é que você estava lendo (no quando agora da construção daquele primeiro espetáculo, A Angústia). Você me respondeu “ensaios”. Achei uma coisa curiosa, sobretudo porque não pensava que me diria coisa assim. Àquela altura, com 19 anos, eu imaginava que fazedores de teatro liam peças.

Agora, tantos anos após, você mais uma vez fala como quem transpassa tudo ou quase tudo, e fico pensando nessa construção que dança e escapa diante de “questões” que te “botam armas na cabeça” rs.

É de uma vivacidade surpreendente. Natural seria mudar o ângulo, experimentar outra forma… Mas… Qual pergunta você (se) faria para alguém que estivesse pensando em abrir um espaço de cultura, um teatro, uma galeria…

Pedro Barreiro – Pois, isso seria verdade se fazer teatro fosse escrever peças. Ah, Tito, que saudades tenho dessas noites em São Paulo…

O que perguntaria a quem estivesse pensando abrir um espaço para  fazer e apresentar arte? Perguntaria o que estaria a pensar para esse espaço, como o imaginaria a funcionar, o que quereria fazer e porquê. E seguiríamos conversando a partir da resposta.

MT – Portanto, como num bom diálogo, o processo de construção da ideia surgiria do contato…. Acho que relembro aqui a palavra que melhor significa o que suas peças causavam – processo. Um processo diante e junto vê.

Se fazer teatro fosse escrevermos peças estaríamos num terreno confortável muitas vezes rs… 

Pode comentar algum trabalho que na experiência da Rua Das Gaivotas que segundo sua perspectiva tenha sido um trabalho com todas (ou muitas das) qualidades que você deseja?

Pedro Barreiro – Pois, continua a ser muito importante para mim que se veja a peça em construção a ser feita diante de quem a vê, até pelo poder performativo – inevitável – da arte.

Sobre o que temos acolhido e apresentado na Rua das Gaivotas 6, têm sido coisas tão estimulantes que pode parecer injusto destacar algumas. De qualquer modo, as propostas que considero que foram as mais extraordinárias em 2020 foram as da Silvana Ivaldi, do Flávio Rodrigues, do João Robalo e da Teresa Robalo, e do Fernando Brito. Deixo-te um pequeno vídeo que faz um balanço de 2020 https://www.facebook.com/watch/?v=686493022050074

e alguns links com mais informações sobre os trabalhos que referi acima:

MT – Pedro! Meu desejo aqui, sobretudo, era mesmo que deixássemos em texto uma pequena fatia dessa forma ligeira e tão mutável que está tão em ti quanto no teu trabalho. Com este acesso a parte do “teu mundo” na arte, com esses links, já começo a te deixar meu melhor abraço de tchau e o muito obrigado. Que nossos leitores mergulhem nesses links e se vejam dentro deste terreno em processo, pela arte. Sempre.

Silvana conheço, também fui colega. Uma artista de muita decisão em cena. Impressiona. E você, caríssimo, continua a me assombrar nas janelas. Estarei atento.

Abraço do amigo. Nos vemos!

Pedro Barreiro – Caramba, Tito, gostei mesmo deste exercício contigo. E as assombrações são da tua cabeça.

Grande abraço e obrigado.

Agradecemos a leitura da nossa entrevista.

,Sobre o entrevistado:

Pedro Barreiro é ator, criador cênico, encenador, dramaturgista, produtor e programador. Licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema (2010) e mestre em Artes Cênicas pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (2016). Foi professor de Criação em Teatro Performativo na SP-Escola de Teatro, em São Paulo (2014). Diretor artístico do Teatro Sá da Bandeira – Santarém (2015-2017). Fundou os coletivos Sr. João (2010) e Activo Tóxico (2017). Colabora com o Teatro Praga como gestor e programador da Rua das Gaivotas 6. É artista associado do Cão Solteiro.

Um comentário em “,Com prazer, correr mais riscos – Uma entrevista com Pedro Barreiro”

  1. Gostei da entrevista. Conheço bem de mais (que nunca é de mais) o entrevistado, e eu, a falar dele, necessitaria de um pedestal bem alto e visível para o colocar, e poderia perder a humildade, que é uma das suas virtudes; outra é a sageza do seu espírito crítico, sempre alerta, sempre a querer saber mais, e saber o fundo das coisas. Uma afirmação interessante de de alguém, gera uma torrente de perguntas e questões para saber mais, parta combater ideias (no bom sentido).

    Atrevo-me a iniciar uma peleia (que sei que o será um dia destes):
    Afirma: “… de lembrar a diferença entre estética e poética, sendo a primeira a faculdade de lermos (percebermos, entendermos…) as formas com que o mundo nos vai sendo apresentado, e a segunda como a faculdade de produzimos formas de mundo”…
    Tenho dúvidas de aceitar a estética como “faculdade de lermos (percebermos entendermos…).
    Parece-me que aí estaríamos no domínio da análise sintática, da semântica, do raciocínio. A estética estará para além disso, aliás, será para lá disso, e onde isso não consegue chegar. A estética estará menos na razão e mais na emoção, no domínio dos sentidos, uma espécie de hedonismo espontâneo, sugerido por estímulo exterior. Não tenho que perceber e entender. A sensação que nos gera uma obra de arte (pintura, música, teatro, até um por do sol), permite-me uma experiência estética, que será uma sintonia entre o meu ser, que capta com os meus gostos e subjectividade, uma sensação a partir do que me é oferecido nos sentidos. A leitura pode gerar esta sensação da experiência estética, mas não enquanto interpretação semântica, sintática ou de racionalização do conteúdo e da mensagem. Acho a estética mais junta da poética. Direi mesmo que a poética é uma espécie de estética do texto.
    Podemos discutir?

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