,O Elogiador do espaço – Uma entrevista com Rogério Skylab

Por Marcio Tito.

Rogério Skylab
Rogério Skylab

Com singular fosforescência na música popular, sua continuada e determinada produção reconforta a cultura fora do mainstream.  Com sua obra, Rogério sugere e confirma uma festa da autonomia e hiper-valoriza o contraditório, enquanto articula visual e sonoramente para além do discurso, sobretudo, uma experiência inscrita na identidade e na verbalização desta persona radical, programática, originalíssima e recheada de pareceres íntimos gritados a força de mega-microfone.

“Arte”. Palavra atravessada por significantes cuja verdadeira experiência não se traduz num simples ou complexo verbete, para no tempo da vida brasileira para testemunhar o trabalho deste artista porque sua elegância e estrela fervem num caldeirão de soluções extraordinárias para temas ordinários.

Pau, buceta e cu surgem com a precisão galáctica de um Bilac, assim como aparecem com a mesma exoticidade de um cão que, ainda sem plumas, passeia encoleirado dentro dos versos de um João Cabral.

Seu público está sempre em luta para superar a camada mais imediata e, sem medo, o artista nunca abriu mão de oferecer à queima-roupa esta forja inicial. Com vocês, respondendo como quem se confessa sem apresentar traço de culpa, e exibindo aqui uma identidade filha da coerência e da permanência de sua produção, Rogério Skylab, um artista independente que  neste estado de independência evoca também um estilo e uma vocação inesperada, e que desde 94 performa um já simbólico e icônico matador de passarinho.

MT – Rogério, sua produção musical, poética e como entrevistador parece abrir no tempo da cultura brasileira a ideia de que a catástrofe e o “pesadelo do belo” podem – e devem – protagonizar também os espaços de contemplação diante do público. Contemplar objetos em ruínas, poemas que tratam de “bofinhas” opressoras, canções dissonantes e entrevistados que tem o dever de deixar na tela uma confissão torta acerca do mainstream da vida dos artistas formatam sua atmosfera.

Deste lugar é que veio Dercy Gonçalves, Glauco Mattoso, Adão Iturrusgarai, Zéu Britto, Júpiter Apple. E sua produção está nítida entre essas figuras e inspirando as que virão. Rogério, por qual via caminharemos melhor quando quisermos encontrar alguma elaboração concreta acerca de sua produção? É tudo conceito sobre conceito, sintoma, extravagância, falta de protocolo, ensaio eterno, crítica a tudo, ou como intuito, lona erguida acima da lona primeiro erguida pelos veículos de mídia que não cansam de nos oferecer essas figuras assépticas, simpáticas, mansas, bem embaladas, compulsoriamente heterossexuais e do bem?

Rogério Skylab – Eu li essa pergunta várias vezes. E mesmo agora, eu não consegui compreender exatamente o núcleo dela. E isso talvez seja proposital. É uma pergunta conscientemente confusa, acenando para várias direções ao mesmo tempo. Mas acredito que o núcleo dela seja “por qual via caminharemos melhor quando quisermos encontrar alguma elaboração concreta acerca de sua produção?” À margem dela tem várias imagens que eu gosto: “conceito sobre conceito”, “sintoma”, “ensaio eterno” e “catástrofe”. O fato é que não há uma via preferencial, Marcio. Meu trabalho é um elogio ao espaço.

Enquanto tal, eu abandono as vias principais e tomo as transversais. É o prazer pelas transversais. Gosto sempre do que está do lado, ainda que os nossos olhos não o alcancem. E caso venha a alcançar, o interesse passa a ser ao que está do lado, até que os olhos o alcancem de novo e o interesse se desloque novamente pro que está ao lado.

Daí porque eu gostei da palavra “sintoma”. Mas eu compreendo também que pra essa natureza espacial se requer tempo, muitas páginas ou longas discografias. Difícil é encontrar nos tempos modernos a paciência da escuta. Daí a preferência pela cristalização da imagem ou pela folclorização – esse tem sido o meu karma. 

MT – Quando você fala das longas discografias e das muitas páginas, com satisfação encontro aí um artista que também faz da obra um comentário acerca do percurso. Aqui, agora, uma pergunta mais conceitual: nos primeiros anos, antes da primeira entrevista, antes de lançar o primeiro disco, seu objeto de desejo na arte era qual? Hoje é qual? Houve grande transformação ou você tem sublinhado algo que sempre esteve aí?

Rogério Skylab – Foi a literatura. E a sensação que eu tenho é que as pessoas da minha geração, e mesmo as que fazem parte das gerações seguintes, se têm uma marca comum,  essa marca é a do abandono da literatura. Esse abandono marca ainda gerações anteriores a minha. A rigor a literatura é um fenômeno do século XIX.

Sob essa perspectiva, eu me sinto vivendo um universo paralelo. Os tempos contemporâneos permitem universos paralelos, o que, de alguma forma, sugerem tempos copresentes. Acho perfeitamente possível estar no século XXI e no século XIX ao mesmo tempo. De forma concomitante. É diferente de uma nação, como o Brasil, ter cidades como São Paulo e outras que estruturalmente estão na idade média. Os universos paralelos que me refiro são efeitos da vontade e do desejo. 

MT – Pela sua formação em Letras e Filosofia, claro, naturalmente, poderia imaginar a literatura em primeiro plano – por qual razão a canção acabou procurando em seu trabalho esse híbrido entre som, texto, estética, discurso? Ou seja, como a canção resolve dentro da sua produção influências como João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Machado de Assis…

Rogério Skylab – Essa questão é complicada. Porque a gente tem que pensar a diferença entre música e canção, canção e poesia. A história da música no Brasil não coincide com a história da canção. Há um momento preciso, eu diria meados dos anos 50, em que a música (música de concerto) deixa de ser relevante no Brasil e esse momento coincide com a ascensão da música popular. Há hoje em dia uma espécie de acordo, anti-hieráquico, colocando no mesmo patamar a música de Villa-Lobos e a de Nelson Cavaquinho. E de fato estão. Mas isso não pode servir pra escamotear o tremor, o abalo dessa mudança profunda, simbolicamente sangrenta, da ascensão da canção.

Por outro lado, quem viveu nos anos 70 sabe dos conflitos entre MPB e Poesia Brasileira em torno de vários aspectos, inclusive em relação a oposição que ambos empreenderam contra a ditadura militar – com o tempo, esses conflitos foram diluídos, mas não deixam de se refletir até hoje. Quando cito essas questões, apenas quero deixar bem claro o universo específico da canção. Para muitos, é um formato conservador e nacionalista.

Há quem diga em alto e bom som que a canção morreu. Questões que refletem um fundo sangrento que eu procuro sempre trazer à tona. As relações entre a canção e a literatura, que  você chama a atenção no meu caso, tem milhões de mediações. Não é tão simples assim porque são experiências completamente diferentes. Prefiro sublinhar a diferença: pra minha música, mais importante que a literatura, foi a história da canção brasileira.

MT – Falando nessa intimidade entre a sua produção e uma certa linhagem consequente, quais suas referências mais diretas na canção? Com quem é que você “bate-papo” quando canta? Aliás, seu processo criativo explora onde? Sua atitude com o que você produz, qual é? Joga fora, recicla, guarda, vem pronto e aí é só tocar?

Rogério Skylab – Respondendo tua pergunta e articulando com o que eu dizia antes: fazer canção, no meu caso, é não ter nada na cabeça. É entrar num jogo com os olhos vendados. É uma experiência, que eu diria, simetricamente inversa à experiência da poesia. Porque a canção, de uma certa forma, está ligada à música, que é a arte mais abstrata que existe. Já na poesia, a razão, pelo menos aparentemente, ainda está muito presente, isto é, a intencionalidade, o que você quer dizer.

Todas as vezes que eu fui fazer uma canção, desejando dizer certas coisas, acabava não fazendo canção nenhuma. É quase uma lei: “se quiseres fazer uma canção, esqueça tudo o que você quer dizer”. E não é difícil entender porque isso acontece. No meu caso, primeiro nasce o ritmo e a melodia – e não há nada mais abstrato, tudo permanece em aberto. Só depois é que eu vou tentar encaixar sílabas em meio a uma estrutura já pronta. Encaixar sílabas, somente isso. À medida que você vai encaixando, o sentido vai se produzindo numa outra região da qual você não tem nenhum domínio. É como se o que você diz tivesse antes a anuência de uma estrutura rítmica e melódica.

Você não diz o que você quer, você não tem a mesma liberdade dos versos livres de um poema. Entende por que Platão condenava a poesia? Naquela época a poesia era cantada. É como se o poeta estivesse possuído, em transe, escrevendo o que uma entidade lhe ditava. Esse é o fenômeno que eu enfrento na canção: eu não digo o que eu quero, eu digo o que a canção quer que eu diga. No fundo, a canção apenas deixa mais exposto o processo criativo.

Porque na poesia você se ilude acreditando que tem o domínio do processo. Mas em todo fazer artístico tem esse campo irracional que tanto incomodava Platão, a canção deixa apenas mais exposto isso.

Ora, se não é a razão que comanda o processo, surge então toda a força do passado, da história, da estrutura social, das forças singulares- que são pré-individuais. Você diz uma coisa porque já tinha ouvido dizer. Você a repete. A forma como a diz, porém, e como combina esse já dito, instaura um paradoxo: você diz a mesma coisa, mas de uma forma diferente. É a mesma coisa e já não é a mesma coisa. E muitas vezes essa diferença diz respeito a um mero deslocamento que você efetua no já-dito. 

É a arte combinatória: o que você seleciona dessa grande tradição e o que deixa de lado; e como você combina os elementos selecionados. Nada de novo sob o sol. É tudo repetição e diferença – mas uma diferença que nasce da própria repetição. A canção, melhor do que a poesia, expõe as entranhas dessa teia. Na minha música tem muitas vozes. E essa seleção é tão arbitrária. Seleção às cegas. O máximo a atingir é selecionar o que eu não gosto e fazer um disco de sertanejo-universitário.  

MT – No seu mais recente trabalho, “Cosmos”, existe- como é natural que exista-, um refinamento das formas iniciais. Tanto a tecnologia aparece para apresentar o trabalho com uma roupagem super bem produzida, quanto as letras parecem querer oferecer uma fala mais comprometida com certa percepção de mundo do autor. É um disco reflexivo, um dançante introspectivo. Claro, no meu ponto de vista. O que você tem escutado sobre? Você costuma elaborar o que escuta sobre sua produção ou prefere fugir dessa troca? Muitos artistas dizem que as críticas podem engessar a produção, outros procuram críticas porque o diálogo reverbera em outras soluções… Qual sua relação com crítica tradicional? Qual sua apreciação dos comentários dos fãs?

Rogério Skylab – Sobre o disco “Cosmos”, é o primeiro volume da Trilogia do Cosmos – que é o meu atual projeto, e sobre o qual eu estou ainda debruçado. Quanto à questão da crítica… Aí é um problema mais delicado. A minha grande referência é a nouvelle vague: todos os cineastas desse movimento escreviam críticas de cinema na imprensa. Acho que os músicos e compositores deveriam também escrever críticas de música.

Eu, pelo menos, tenho vários textos sobre música – ainda penso em publicar um livro só com esses textos. Alguns deles já foram publicados em coletâneas da FUNARTE. A força de um movimento musical, como foi o tropicalismo, é inadmissível sem os seus teóricos, sem os jornalistas que o apoiam, sem os artigos acadêmicos… É todo esse ambiente que faz a glória de um movimento.

Cosmos - A mais nova produção Skylab
Cosmos – A mais nova produção Skylab

MT – E para além da crítica enquanto suporte histórico das obras, ou enquanto moldura para as experimentações de um tempo, você costuma “responder” críticas com sua produção seguinte ou seu trabalho se desenvolve num diálogo mais “interno”?               

Rogério Skylab – O diálogo é interno e externo. De início, eu tinha um projeto estético, muito presente nos meus três primeiros discos: “Fora da Grei”, SKYLAB I e SKYLAB II. Esse projeto consistia no contraponto entre letra e melodia: para um som muito formado de acordes perfeitos, havia uma letra completamente fora do esquadro.

Talvez a canção que melhor expresse essa fase é “Naquela Noite”: o som diz uma coisa e a letra diz outra. Num determinado momento, por influência de bandas como Zumbi do Mato e Damião Experiença (a crítica externa não precisa vir num formato convencional), eu comecei a sentir necessidade de entortar o meu som, de provocar dissonâncias sonoras. Um exemplo dessa fase é “Dedo, língua, cu e buceta”, que eu toco até hoje nos meus shows apesar de ser uma canção bem antiga. Não que o outro projeto tenha desaparecido: eu convivo com essas duas tendências e ambas perpassam toda a minha obra. Mas a crítica, seja ela externa ou interna, está sempre presente. 

MT – Consegue, de bate-pronto, deixar uma letra tua que, segundo o que temos vivido, deixará aqui no encerramento um parecer sobre o Brasil, o mundo, essa fase da história?

Rogério Skylab
Buceta Bradesco
(do disco “Crítica da Faculdade do Cu”)

A buceta bradesco se chama Bia.

Em caso de fome será que atenderia?

É aberta por fora e fechada por dentro,

Um mistério profundo, um sonho, um pesadelo.

Nos abismos do céu, num pedaço de mar,

nos barracos da cidade.

Dentro do coração,

no interior do sertão,

nas senzalas, no senado.

A buceta bradesco faz pompoarismo,

clã de sereias todas famintas,

quem escuta seu canto não fica ileso,

a sua voz soa a todo momento.

Nos buracos, nos vãos,

no brilho dos salões, nos atalhos, nas esquinas.

Nos desvãos da canção, no outro lado do Rio,

nas ruínas, nas favelas.

A buceta bradesco é um buraco negro,

tem gosma, tem sangue, tem cheiro, tem pelo.

O seu coração é uma cloaca,

um buraco no meio e o vazio dentro.

Na Av Brasil ou debaixo do chão,

nas vitrines, nas estrelas,

nas selas das prisões, diante da TV, internet, netflix.

A buceta bradesco parece cinema,

às vezes exílio, às vezes non sense,

ela tem uma coisa que não transparece,

um sorriso nos lábios, um riso entre os dentes.

MT – Muitíssimo obrigado pela fala clara e interessada. Este site é feito disso. Gente real, engajada em ser, realmente falando sobre que é a realidade. Arte, vida, esse país e a gente dentro dele! Abraçaço!

Agradecimento especial a Mariana Serra.

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre o entrevistado:

Rogério Skylab iniciou seus trabalhos de compositor lançando em vinil o disco FORA DA GREI no início da década 90. Lançou também a série dos Skylabs (um total de 10 discos, sendo que com o SKYLAB V faturou o Prêmio Claro de Música Independente, e com o SKYLAB IX produziu seu primeiro DVD).  A Trilogia dos Carnavais (“Abismo e Carnaval”, “Melancolia e Carnaval” e “Desterro e Carnaval”), também de sua autoria e que viria a se transformar num DVD produzido pelo Canal Brasil, contou com ilustres convidados: Jorge Mautner, Jards Macalé, Arrigo Barnabé, Michael Sullivan, Fausto Fawcett e a Velha Guarda da Mangueira. Tem também no currículo a trilogia “Skylab & Tragtenberg” e a “Trilogia do Cu”. Seu novo projeto, a “Trilogia do Cosmos”, ainda está em andamento, com já dois volumes lançados: “Cosmos” e “Os Cosmonautas”. Apresentou no Canal Brasil por três anos o programa “Matador de Passarinho”.  Tem dois livros publicados: “Debaixo das Rodas de um Automóvel” (poesia) e “Lulismo Selvagem” (ensaios políticos).  Apresentou também o programa “Desentrevista” com Gustavo Conde pelo site do Brasil 247.

Instagram: @rogerio.skylab

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