,A microfísica do fascismo e as implicações psíquicas

Por Alan dos Santos.

Revisão: Aline Machado.

Passo a passo, Lesley Oldaker, óleo sobre papel, 2018
Passo a passo, Lesley Oldaker, óleo sobre papel, 2018

Ao escrever uma introdução para a edição estadunidense do livro O Anti-Édipo de Gilles Deleuze e Félix Guattari, o filósofo francês Michel Foucault (1977) redigiu um ensaio que ganhou destaque – uma espécie de vida própria – por trazer uma problemática relevante e urgente: a atualidade do fascismo, sobretudo de um fascismo éticoque se convencionou chamar de microfascismo.

O termo pode sugerir tratar-se de um fascismo diminuto e enfraquecido, mas longe disso. Antes, trata-se de um fascismo que se exerce transversalmente em microesferas do laço social e das relações intersubjetivas, com certa autonomia em relação à perspectiva ideológica do governo e da macropolítica nacional. Os microfascismos existem para além do Estado. O bolsonarismo, por exemplo, essa expressão brasileira do conservadorismo global, já havia ativado e estimulado condutas neofascistas na sociedade brasileira antes de alcançar o poder estatal via voto.

O texto de Foucault (1977) se intitula Introdução à vida não fascista. A questão colocada por Foucault é a de se conduzimos a vida de modo fascista, se participamos da linguagem de modo autoritário, se fazemos do fascismo um modo de se relacionar com o Outro, principalmente o outro que nos revela uma diferença subjetiva; em suma, trata-se de uma dinâmica vital, relacional, psíquica e necessariamente política porque humana. O livro de Deleuze-Guattari prefaciado por Foucault supostamente nos ensinaria a viver de modo não fascista e não cafetinado. Segundo Foucault, essa seria a potência maior do livro, o seu regime de saber.

Vale acompanhar o modo como Foucault coloca a questão:

[…] o inimigo-maior, o adversário estratégico (embora a oposição do Anti-Édipo a seus outros inimigos constitua mais um engajamento político): o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em todos nós, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora. (FOUCAULT, 1977).

Segundo a descrição de Foucault, há, por um lado, o fascismo histórico de Hitler e Mussolini, e por outro, um fascismo ético, cotidiano, que nos atravessa, mobilizando ou cerceando o desejo; um fascismo que martela nossas condutas, nossas ações e nosso psiquismo. Esse microfascismo perpassa também as esquerdas, nos faz amar o poder. Foucault direcionou a crítica especificamente aos crimes do stalinismo, essa simbiose de comunismo com elementos fascistas que caracterizou uma parte significativa da história do século XX.

No começo do texto Foucault escreveu que havia, na França de sua época – décadas de 1960 a 1980, sobretudo -, um jeito correto de pensar: não se podia distanciar muito de Marx e de Freud, mas a sua geração vinha se esforçando para reler esses autores com mais potência, e autonomia e de modo menos doutrinário. Foucault, ironicamente, afirmou que as “igrejas de Marx e Freud” também cerceiam o desejo, amam o poder e a institucionalidade burguesa; por outro lado, ele próprio, Deleuze e Guattari encontrar-se-iam na luta pela criação de uma arte da existência não fascista. A suposta igreja de Marx cercearia o desejo ao descrevê-lo como uma instância histórica produzida pelo capitalismo para vender mercadorias desnecessárias, mas cobertas de fetiche e de magia. Já a igreja de Freud cerceia o desejo ao atualizar um estoicismo repaginado para a contemporaneidade, em outras palavras, ao insistir que é preferível frear o desejo em vez de liberar os fluxos intensivos e desejar o impossível – o delírio neurótico, o gozo impossível.

Claro está que essa é uma descrição ligeira e pragmática por parte de Foucault. O debate sobre o que é o desejo possui uma história que, aliás, se confunde com a história da psicanálise. O próprio Foucault dedicou palavras menos hostis para a psicanálise ao tratar da “hermenêutica do sujeito”. O que é a psicanálise senão um exercício hermenêutico do sujeito para consigo mesmo, uma relação agonística de si para consigo? A retificação subjetiva descrita ou mesmo prescrita por Lacan como o fim da análise não seria também a formulação de uma arte da existência não fascista, o alvorecer de uma vida mais potente e livre? Christian Dunker, um dos grandes nomes da psicanálise lacaniana no Brasil, não hesitou em escrever que a psicanálise é herdeira das práticas éticas do cuidado de si próprias da antiguidade clássica e descritas por Foucault (o conheça-te a ti mesmo socrático é elucidativo nesse ponto). O que insere a psicanálise no devir histórico das práticas de cuidado e autogoverno é o esforço para fazer da vida e da existência um objeto de análise, algo analisável, passível de análise – passível de psicanálise!

É nesse sentido que Foucault (1977) escreveu que o livro de Deleuze-Guattari é, antes de mais, um livro de ética, “o primeiro livro de ética que se escreveu na França depois de muito tempo”. Ser Anti-Édipo, nas palavras de Foucault, “tornou-se um estilo de vida, um modo de pensar e de vida”. Como fazer para não se tornar fascista, não ser atravessado pelo fascismo, mesmo quando o sujeito se considera um militante revolucionário? Como liberar nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres das artimanhas subjetivantes do fascismo e dos poderes? Em outras palavras, como expurgar o fascismo encrustado em nosso dinamismo pulsional?

Por mais que Foucault tenha provocado uma certa ortodoxia freudo-marxista francesa, é nítido que os microfascismos são estimulados majoritariamente pela máquina de guerra do conservadorismo – ou disso que podemos chamar de extrema-direita. No caso brasileiro, pior do que Bolsonaro é o bolsonarismo como força social. Bolsonaro passará, mas a destruição das políticas sociais e a projeção da guerra permanente entre formas-de-vida como fator estruturante das relações sociais e intersubjetivas não ruirá em breve. Sabemos que, segundo a analítica do poder de Foucault, onde há relação humana há relação de poder. Não há poder com P maiúsculo, mas tão-somente relações de poder. Se só existisse um humano na terra, o poder sequer seria uma questão a ser pensada, mas se há dois corpos e duas subjetividades se relacionando e trocando palavras (significantes), aí já há relações de poder. Daí a tese foucaultiana comumente difundida da microfísica do poder. Eis que o fascismo também possui uma dinâmica microfísica e relacional. O fascismo contemporâneo reside na relação com o outro e, pior, na relação do sujeito consigo mesmo. Tensionando o pensamento de Foucault e levando-o ao seu limite, podemos afirmar que a inscrição de um Eu – desse traço identitário dado pelo Fora -, é já a assunção de um fluxo neofascista porque limitador da existência e construído a partir dos poderes.

Posto isso, a questão que se impõe é: como criar uma relação humana que não seja ao mesmo tempo uma relação de poder? Como estabelecer uma relação humana que não signifique um entrave para o viver? Contrariando Foucault, será que a ética psicanalítica da suspensão do juízo moral, da não sugestão ao analisando, do respeito à livre-associação e da escuta plena inicia uma relação humana que não passe pelo poder de afetar e conduzir o outro? Penso que essa é uma questão que vale ser pensada. Que relação é essa que se estabelece entre analista e analisando e entre o analisando consigo mesmo (e com seu inconsciente) num setting analítico? Essa relação tem força para resistir aos poderes ordinários e às capturas fascistas do desejo?

Após colocar a questão-problema desse fascismo ético e cotidiano, Foucault (1977) descreveu estratégias para uma possível estetização da existência, os prolegômenos para uma vida não fascista:

  • 1. “Libere a ação política de toda forma de paranoia unitária e totalizante”. Aqui, vemos uma crítica ácida ao projeto revolucionário do marxismo, uma descrença na revolução. A questão seria resistir, estabelecer lutas imediatas: é possível salvaguardar a luta de classes do colapso do comunismo e da igreja de Marx? É possível reorientar a luta de classes como força propulsora dos conflitos sociais sem a necessidade do catecismo revolucionário?
  • 2. “Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, mais do que por subdivisão e hierarquização piramidal”. Na guerra em curso contra as múltiplas possibilidades de existência, pensamento livre, mas engajado, autonomia existencial, liberdade comportamental e experimentações de si (inclusive clínicas) são processos de luta política. O conflito é capilar e heterogêneo. A atuação na guerra não requer filiações: publicação de textos (zines ou copyleft), uma ida ao teatro político, prestigiar o cinema brasileiro, visitar um acampamento sem-terra, ouvir samba, funk ou punk e fazer do psiquismo um dispositivo de guerrilha; combater as forças moralizantes, experimentar e fazer arte fora das galerias, sem se esquecer da sempre atual luta de classes – não esquecer também de que há muitos outros conflitos importantes e capilares –, essas ações incidem politicamente sobre a guerra que se exerce pela cultura e sobre as condutas. Parafraseando o coletivo ativista anônimo Tiqqun (2019), a questão é sentir-se integrante de um Partido Imaginário que está em movimento e em combate. Um pouco de delírio senão sufoco!
  • 3. “Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna), que o pensamento ocidental, por um longo tempo, sacralizou como forma do poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo; a diferença à uniformidade; o fluxo às unidades; os agenciamentos móveis aos sistemas. Considere que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade”. Na guerra em que vivemos, não é preciso tornar-se militante para atuar – “para guerrear”. Em última instância, estamos todos inseridos nela, alguns tomaram consciência disso e outros não. Há um modo ético de resistir, produzir a si mesmo e atuar em prol da liberdade de autoprodução; é urgente defender a liberdade de fazer da vida uma obra de arte, algo bom porque ético e belo porque estético.

Percebe-se no texto de Foucault (1977) uma crítica ao “negativo”, que na dialética hegeliana e na psicanálise lacaniana significa a falta, uma ausência fundamental estruturante do desejo, um eterno porvir em busca de um objeto fugidio. Talvez seja a hora de enveredar as lutas contemporâneas para além da falta e do negativo; para além da lógica da contradição dialética: da negação para a afirmação e de volta para a negação num círculo vicioso sem fim. Agora, não se quer derrotar um adversário abstrato ou impessoal: o Estado, o Poder ou qualquer outra metafísica política. O adversário tem nome, cor, cheiro: os microfascismos que circulam entre (e em) nós.

  • 4. “Não imagine que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não a sua fuga, nas formas da representação) que possui uma força revolucionária”.

Não deixa de ser interessante Foucault (1977) trazer o tema da tristeza: não é preciso ser triste para ser militante. Este nosso ensaio político-psicanalítico-filosófico possui um axioma fundamental, que pode ser descrito nos seguintes termos: como fazer da resistência política um gesto de afirmação da vida? Como superar a lógica de reação disseminada pelo fascismo contemporâneo?

O coletivo Tiqqun (2019), num texto intitulado de Contribuição para a guerra em curso, escreveu que a unidade humana elementar não é o corpo, mas a forma-de-vida. “Dessubjetivar” os poderes e retificar a subjetividade é uma tarefa política de primeira importância. A direita contemporânea quer normatizar modos de existir e censurar as potências pulsionais, daí a insistência no quesito moral-castrativo. O conservadorismo expressa um desconforto com a plasticidade do ser. Uma definição possível de esquerda passa pela criação ética e pela experimentação comportamental – só daí se poderá subtrair uma forma-de-vida livremente construída.

Como escreveu Tiqqun, a guerra em que vivemos é o “livre jogo das formas-de-vida”. A tarefa da resistência, hoje, como escreveu Deleuze (1976) na esteira de Nietzsche, é assegurar o “direito a uma vida mais ampla, mais ativa, mais afirmativa, mais rica em possibilidades; […] é dentro do próprio homem que é preciso libertar a vida, pois o próprio homem é uma maneira de aprisioná-la”.

Libertar o homem do próprio homem – e de si mesmo -, eis uma resistência possível ao fascismo.

Referências:

DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. Rio de Janeiro: Rio, 1976. Tradução de Ruth Joffily Dias e Edmundo Fernandes Dias.

FOUCAULT, Michel. Introdução à vida não fascista (1977). Disponível em: <https://pimentalab.milharal.org/files/2012/05/foucault_anti_edipo.pdf>. Último acesso em 05 de março de 2021.

TIQQUN. Contribuição para a guerra em curso. São Paulo: n-1, 2019. Tradução de Vinícius Nicasto Honesko.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Alan dos Santos é Professor de Filosofia e Políticas Públicas. Licenciado em Filosofia. Mestre em Filosofia Política. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Analista praticante – participa do Seminário Permanente de Psicanálise Estrutural da EPE.

3 comentários em “,A microfísica do fascismo e as implicações psíquicas”

  1. Se você me mandar um endereço de e-mail, envio a você um texto de Diogo Sardinha, cuja leitura desse texto é absolutamente diferente daquela que se costuma fazer. Alinha-se, como você faz, Foucault a Deleuze e Guatari….como se Foucault estivesse o tempo todo concordando com as premissas teóricas e com as consequências políticas do “Anti-Édipo”.

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