,Sobre a dramaturgia de Daniela Pereira De Carvalho

Por Marcio Tito.

Revisão: Aline Machado.

Liliana Castro e Eduardo Moscovis em Por uma vida um pouco menos ordinária - Fotografia / Lenise Pinheiro
Liliana Castro e Eduardo Moscovis em Por uma vida um pouco menos ordinária – Fotografia / Lenise Pinheiro

Fazendo um recorte inscrito nas mais recentes e ainda inéditas produções de Daniela Pereira de Carvalho, organizo algumas questões que agora fogem ao instante e buscam não os mecanismos ou as estratégias formais do agora, mas sim as intuições de ontem e de sempre.

Tive o privilégio de ler 3 dramaturgias de Daniela (“Comportamento”, “Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe” e “Pacífico”, todas inéditas) e para que leitores e leitoras não se vejam em pé de “desigualdade” conosco, tomarei o cuidado de tratar das peças de um modo que falemos essencialmente da relação da autora com sua produção em todos os tempos, e não dos detalhes dessas encenações ainda desconhecidas do grande público.

Abaixo a entrevista:

MT – Daniela, como prometido, para que leitoras e leitores não sofram de um ódio mortal por nossas falas rs, farei algumas perguntas “gerais” acerca do que seria “dramaturgia”. Em poucas ou muitas palavras, o que é (ou o que ainda é) uma dramaturgia segundo o seu projeto de artista?

Claro que uma dramaturgia tradicional, de modo literal, é uma proposta de texto que busca se ver inscrita na ação dramática (assim que compreendida pelos artistas e pelas artistas envolvidas na produção daquela peça de teatro) mas aqui está o obstáculo: a sua dramaturgia ainda se percebe dentro desta baliza ou a sua experimentação do teatro flerta com opções dramáticas que escapam a este modelo?

DPC – Acho que, nessa nossa época, já não existe dogma normativo para a dramaturgia. No século XX explodiu-se essa noção de norma. Estamos livres para escrever e explorar formas de escrever – e dar a essa escrita livre o título de dramaturgia. Como Gertrude Stein que escrevia textos teatrais que escapavam completamente a qualquer padrão e dizia “Quero que isso seja uma peça”.

No meu trabalho, especificamente, eu – até hoje, pelo menos – sempre me proponho a contar alguma história… Só porque gosto mesmo de ter alguma história para desenvolver. É um pressuposto pessoal, íntimo. Nesse sentido, é possível perceber certa estrutura que dialoga com formas dramatúrgicas normatizadas pelo Drama Moderno, talvez. Eu, pelo menos, acho que é perceptível ali, nas minhas peças, essa estrutura que dialoga com o que se convencionou chamar dramático. Mas não tenho regra nenhuma. Vou escrevendo e vou descobrindo como escrever. Todo dia. Não tem modelo, não tem manual. Nunca tive.

Contar a história para mim é sempre uma descoberta. Nunca sei como vou fazer. Nunca sei como a peça vai se construir na escrita. Não tenho um planejamento formal inicial. Tenho uma ideia, uma questão. Invento uma história que aborde essa questão e começo a escrevê-la. É sempre um precipício mesmo.

E sempre quero, busco fraturas na estrutura dramática. Uma forma dramática corrompida. Híbrida. Impura. É a minha inquietação permanente. Manter um resquício do “dramático”, mas instabilizá-lo simultaneamente.

MT – Eu “vi” Daniel MacIvor, eu vi Sarah Kane e eu vi passar uma citação a Shakespeare. “Vi” tudo isso, mas, no final dos enredos e na impressão final do seu trabalho – mérito seu! – o que resta é uma voz que não se apoia nas referências que elege. Claro, essas coisas que “vi” podem ser ilusões trazidas pelas referências que tenho, portanto deixo aqui um espaço livre: Quais as suas referências mais imediatas e o que é que essas vozes possuem para que você as queira conjuradas dentro do seu trabalho criativo?

DPC – Olha… Daniel MacIvor é uma surpresa para mim! Não tenho nenhuma relação especial com a obra dele, não. Só vi as peças que foram montadas aqui, pelo Kike. Que acho bacanérrimas! Curioso você fazer essa relação…

Sarah Kane sim. Foi uma referência muito importante para toda a minha geração, eu acho. Era muito jovem quando li Kane e, ainda hoje, acho belíssimas suas peças! Há poucos dias reli “Cleasend”. Fiquei com vontade de reler e reli na tradução do Felipe Vidal, “Purificado”. Felipe fez uma montagem muito bonita dessa peça.

Shakespeare é Shakespeare. Uma referência universal. Mas minhas duas principais referências são Samuel Beckett e Anton Tchekhov. Por referências principais quero dizer dramaturgos preferidos. Não sei dizer se eles aparecem muito nas peças. PACÍFICO – que você leu e vai ser feita pelo Gilberto Gawronski – é minha peça mais “beckettiana”, por assim dizer. Talvez seja a única que deixa visível a influência do Beckett.

Beckett e Tchekhov me levaram a ler Marcel Proust e Virginia Woolf, eu acho. Uma certa obsessão em torno das múltiplas noções de “tempo”, em alguma medida, me atrai muito em cada um deles. E se tornou minha obsessão também.

Bruce Gomlewsky em "Renato Russo - O Musical"
Bruce Gomlewsky em “Renato Russo – O Musical”

MT – Engraçado… Seu trabalho me parece bastante sólido na direção de nos apresentar um lugar, um tempo-espaço e uma personagem cujas características parecem marcadas, talvez por isso eu tenha escapado a perceber aí o Beckett (visto que o que tenho constantemente sobre Beckett na minha memória mais próxima é aquela radicalidade em dissolver quase tudo e quase todos). Mas agora diante da sua “confissão” rs, realmente existe um lugar de sujeito ausente em si e, talvez, perdido num tempo que devora memória, futuro, enfim, abri a boca e deixei a sensação falar… E acabou que agora me apareceu aqui um Jorge Andrade com aquela constante e ainda assim movimentada revisão da vida, do outro, de si. “A Menina Escorrendo dos Olhos da Mãe” você escreveu do começo ao fim durante o isolamento, né? Uma frase me chamou a atenção: O passado interrompe a cena. Elisa no passado.

Pode partir dessa rubrica e desenvolver um comentário sobre essa peça?

DPC – Que legal isso de você ver o Jorge Andrade. Fiquei incomodada em ter, na minha resposta anterior, só citado autores estrangeiros. Devia ter falado do Domingos Oliveira. Sempre. E gosto muito do Jorge Andrade, que tem uma relação com o tempo – em sua dramaturgia – muito interessante! Aliás, Jorge Andrade é, comumente, relacionado ao Tchekhov.

Sobre o Beckett… Eu me distanciei o máximo que pude! Porque era uma referência muito forte para mim. Então, quando comecei a escrever, quis ir para outro caminho, romper com a referência…. Mesmo assim, ele foi meu objeto de pesquisa no Mestrado. Não quero imitá-lo, nem perdê-lo completamente. Acho que a referência ficou por ali… Dispersa. Ganhando outra aparência, como você apontou.

A MENINA ESCORRENDO DOS OLHOS DA MÃE foi escrita entre junho e setembro desse ano, 2020. E a ideia que me movimentou a escrevê-la foi construir uma história dividida por uma elipse de tempo. Preciso dizer que a escrita foi acompanhada por leituras semanais. A minha querida amiga, Sílvia Buarque, topou me acompanhar enquanto escrevia. Foi muito bom escrever com ela lendo cada nova parte. Eu gosto muito de trabalhar assim. A gente vai montar a peça, pós-pandemia, com a Sílvia, a Guida Vianna e o Rodrigo Portella, meu querido amigo da época da faculdade, dirigindo.

Bom… Essa peça – A MENINA ESCORRENDO DOS OLHOS DA MÃE – começou com uma ideia de elipse temporal. Começou como uma abordagem sobre o tempo. A obsessão que já mencionei. Proust é meu objeto de estudo acadêmica (junto com Beckett) desde a Graduação. Essa rubrica que você destacou – “O passado interrompe a cena. Elisa no passado.” – me parece uma evidente influência proustiana… rs. A convivência das camadas do tempo no interior das subjetividades. Eu li “As Ondas” da Virgínia Woolf enquanto escrevia essa peça. Woolf lia “Em busca do Tempo Perdido” enquanto escrevia “Ao Farol”. São camadas de tempo, tudo isso. Na peça, há um passado que se perdeu, um passado que se desconhece… E mesmo assim, esses passados se fazem muito presentes a ponto de interromper o presente. Estão presentes nos corpos das personagens e na ligação entre elas.

As pessoas que leram esse texto, o Rodrigo, a Tania Brandão – minha querida Mestra- apontaram para o fato de ser uma peça que tematiza questões femininas. Eu não planejei isso! Meu plano inicial era a elipse do tempo. Isso – a hipótese sobre questões femininas – apareceu na construção. E sim, hoje vejo que as personagens estão lidando com questões sobre suas subjetividades enquanto mulheres. Inseridas nessa ordem do patriarcado heteronormativo. Lidam com a ruptura dessa ordem, com a submissão a essa ordem. Acho que essa questão do “feminino” é interessante como contraste a COMPORTAMENTO (a terceira peça que você leu) que, talvez, seja uma peça que tematize mais uma ideia de masculinidade. As duas peças contrastam. Eu gosto disso.

MT – Tanta coisa na sua resposta me faz querer falar e falar, mas para buscarmos uma certa objetividade (a serviço não sei bem de quê rs) vou saltar isso tudo e ir num ponto que parece mais fervido nessa história toda. Os três trabalhos parecem escritos segundo essa sua predileção pela história e não, como tantas vezes na atualidade, com os olhos logrados no jornal, nos noticiários, na notícia corrente. Tradicionalmente você elege “arquétipos” e “fábulas” ou, mais uma vez, a exemplo da sua relação com Beckett, você parece fazer todo o possível para “escapar” da influência dos dias que vivemos. Quero dizer, a questão feminina enquanto comentário social, na sua obra, parece não trazer o feminismo da atualidade, mas sim arquétipos femininos em um contexto de narrativa que também comenta o feminino, mas sem a mobília do contemporâneo.

DPC – Não sei se gosto muito nem da palavra arquétipo, nem da palavra fábula. Porque acho que os personagens e as histórias são tão instáveis nessas três peças – e em todas as outras que escrevi. Que essas noções não me parecem muito importantes… Há um fio de história que vai se desenrolando e se pulverizando simultaneamente. E os personagens… São tão específicos, tão cheios de idiossincrasias que, me parece, se distanciam de arquétipos.

Eu discordo de você, acho que a questão feminina em A MENINA ESCORRENDO DOS OLHOS DA MÃE é bem próxima do feminismo da atualidade. Não quero nem um pouco escapar dos dias que vivemos. Não sei o que você chama de “mobília contemporânea”. Teria que entender melhor isso.

Mas na peça há o embate de personagens, mulheres, atravessadas pelo espírito de suas épocas. Três gerações de mulheres que lidam de forma completamente diferente com a maternidade, com a sexualidade, com as próprias origens… Com a lógica do patriarcado heteronormativo. São fragmentos de feminismos. Não existe 1 único feminismo, claro.

A única coisa da qual tento fugir é da falta de contradição. Não me atrai narrativas que não se contradizem, que proclamam soluções ou verdades.

Marcelo Valle, Bruno Gagliasso e Pedro Garcia Netto em "Um certo Van Gogh"
Marcelo Valle, Bruno Gagliasso e Pedro Garcia Netto em “Um certo Van Gogh”

MT – “São fragmentos de feminismos… Não existe 1 único feminismo, claro.” – Maravilha, perfeito. Meu comentário (mobília contemporânea) foi mesmo sobre o que talvez eu perceba na minha bolha: uma construção que até concordo, mas que soa como “pauta automática”, sobretudo porque a linguagem procura uma unidade (ainda que no “internetês”). E, talvez, uma unidade que não me parece dar lugar ao contraditório. Mas esse é um outro tema, debate, e quem sabe a gente possa falar dele com maior detalhe num outro encontro.

E que oportuno você dimensionar a “contradição” enquanto elemento fundamental e ainda relevante para a construção de obras! De fato, quando você cita o Drama, o faz com total respaldo.

Bom, digamos que você estivesse num país cujo interesse pela montagem de repertórios fosse, assim, algo que alcançasse os píncaros rs, e essas três histórias pudessem ser contadas em sequência em um teatro, quais elos você imagina que poderiam surgir? As obras, distintas entre si, com inclusive mecanismos diferenciados, guardam quais semelhanças? Ou quais significados atravessam esses três trabalhos?

DPC – Caramba… Essa é a pergunta para qual não sei se já tenho resposta! Hahahaha! Seria maravilhoso montar assim, as três em um teatro de repertório, né? Seria maravilhoso! A gente tem que lutar tanto para fazer teatro… Mas estamos na luta! As três peças estão sendo produzidas. Há o impedimento da epidemia, que me deixa aflita, claro. Nos aflige a todos! Mas temos que ficar firmes!

Acho que mais do que os elos, as contradições e as diferenças, entre as três peças, apareceriam muito, se as três fossem montadas em sequência. Talvez, eu me sentisse esquizofrênica… rs! Mas tem coisas semelhantes, eu acho… Em COPORTAMENTO o personagem canta uma música do George Michael. Em PACÍFICO, uma música do Queen… O Bruce Gomlevsky implica com isso. Ele diz que esse meu apego às citações de rock, pop, punk… São “danielismos” … Hahahaha! Porque, realmente, aparecem recorrentemente. Eu gosto dessas quebras, é um mecanismo que sempre uso de fato! COMPORTAMENTO, PACÍFICO e A MENINA ESCORRENDO DOS OLHOS DA MÃE são peças melancólicas também. Nenhuma é muito solar. Essa melancolia é um traço em comum.

MT – Caso você não dissesse, eu diria rs. Melancólicas sim, porém ativas, em ação, não dramáticas, mas transformadoras. Suas peças parecem o instante depois de um tapa na cara, dado por quem nos ama. Elas, as três, pelo que me parecem, têm ali uma mágoa a ser investigada, visitada, transformada. Oculta ou explícita, essa mágoa é quem rege a respiração das personagens.

Daniela, sua gentileza foi gigante. Muito obrigado pelo acesso e por investigar tão sem amarras o seu trabalho! Merda. Vou gostar de estar nas 3 estreias. E vou torcer pro repertório acontecer. A gente merece.

Grande beijo!

DPC – Adorei a imagem do tapa na cara de alguém que nos ama! Tem uma mágoa sim, uma dor que movimenta… “A falta que nos move” citando minha querida amiga Chris Jatahy.

Obrigada a você, Marcio! Pela generosidade e o interesse de investigar… Vou adorar te ver nas estreias! Esse tempo de espera, em que todos estamos como Vladimir e Estragon, há de se extinguir. “Vamos nadar, vamos ser felizes”.

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre a entrevistada:

Daniela Pereira de Carvalho é dramaturga. Formada em Teoria do Teatro, com Mestrado em Artes Cênicas pela Unirio. Autora das peças “Tudo é Permitido”, “Não Existem níveis seguros para o consumo destas substâncias”, “Renato Russo – O musical”, “Cachorro Enterrado Vivo, entre outras.

Instagram: @dpereiradecarvalho

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