,O que é a pós-modernidade?

Por Alexandre Gnipper.

Um símbolo para o parto da pós-modernidade: o muro de Berlim, vencido e reaproveitado enquanto suporte para uma arte livre, popular, urbana e colorida.
Um símbolo para o parto da pós-modernidade: o muro de Berlim, vencido e reaproveitado enquanto suporte para uma arte livre, popular, urbana e colorida.

O uso do prefixo pós (em pós-modernidade) indica um passado (a própria modernidade) que se desfaz e, ao mesmo tempo, apresenta também um futuro – a pós-modernidade em si, como a vivemos e conhecemos. Mesmo que difuso na neblina densa da era da hiperinformação, dentro do pós-moderno vislumbramos – entre os escombros do passado e a poeira do presente – um futuro inédito, absolutamente distinto daquele aguardado e vivido pelos que vieram antes de nós. O pós-moderno é este período de transição, instante histórico o qual não podemos se quer dar um nome adequado, ou ter real dimensão de seu significado, justamente por estarmos vivendo no olho do furacão da mudança. O olhar crítico da história ou da vida privada, depende de um distanciamento do qual são desprovidos aqueles que vivem determinado momento ou situação de modo imerso, fazendo com que o pós-moderno seja uma ideia ainda submetida a um intenso debate e a uma constante revisão, fadada ao insucesso tão logo apareça um novo volume na biblioteca do contemporâneo. “É destino normal dos conceitos estratégicos serem submetidos a inesperadas apreensões e inversões políticas no curso da batalha discursiva sobre seu significado” (ANDERSOM, P).

E assim foi o ocorrido com o conceito de pós-moderno entre as décadas de 70 e 90, quando alemães e franceses travaram um vívido debate filosófico sobre o termo.

Enquanto o francês Jean-François Lyotard foi o prercursor do estudo da pós-modernidade na filosofia, para quem o pós-moderno está associado ao pós-industrial e à crise na legitimação das narrativas que costumavam nortear nosso modus cultural.

O alemão Jürgen Habermas se apresentou como principal antagonista dos defensores do pós-moderno. Seu argumento principal gira em torno da afirmação de que a modernidade ainda não teria esgotado as suas possibilidades. Sua resistência é sintomática e será abordada mais adiante, mas sua objeção de pronto nos traz um primeiro questionamento: Seria o pós-moderno o resultado do sucesso ou do fracasso do projeto da modernidade? Ou apenas o seu esgotamento até virar outra coisa?

Daqui do Brasil do ano 2021, o que me proponho é buscar entender a pós-modernidade não como ideia, mas como um fenômeno complexo de mutação do social (Baudrillard dirá implosão) que faz emergir a necessidade de uma revolução cultural para adaptar os seres humanos às novas condições da existência. Entretanto não podemos nos questionar sobre a pós-modernidade sem antes investigar a natureza da modernidade. Ambos designam um determinado modo cultural, um modus operandi do social que implica em um modelo de subjetividade e em um projeto de indivíduo. Mas, afinal, qual é então este projeto da modernidade que os adeptos do prefixo “pós” alegam ter sido interrompido?

A modernidade sempre se apresentou como um projeto da razão, de racionalizar a sociedade e o indivíduo contra o antigo modo cultural cristão e feudal. Se o monoteísmo cristão era a justificativa para a instituição de um rei solar do qual emana a ordem, no Estado moderno “a voz do povo é a voz de deus”. Nessa nova narrativa todo poder emana do povo e a razão do Estado e da ciência passam a substituir a legitimação divina de um rei que a tudo determina. Enquanto no Renascimento cristalizou-se a ordem da racionalidade, o Iluminismo instaurou a emancipação dos indivíduos e do social como o objetivo dessa era das luzes da razão.

A essência da modernidade é este projeto de mundo onde as luzes da razão nos emancipariam da natureza (seja ela interna ou externa) e do julgo de tiranos. Não é por acaso que as primeiras aparições do termo pós-moderno datam de 1930 e 1945. As duas grandes guerras trouxeram um espírito de grande decepção para com este projeto da racionalidade da modernidade, sobretudo na Segunda Guerra onde as câmaras de gás e a bomba atômica simbolizam a decadência desse ideal de sociedade racional, quando desprovida de moralidade e alteridade. Afinal é da moral, e não da razão, a finalidade de que todos sejamos iguais, porém não enquanto massa, mas sim enquanto agentes de direitos e deveres. Será então a massificação a paródia desse ideal de igualdade com o qual a razão nos manipula para fazer do social o lugar da funcionalidade e não da felicidade? Será esta a grande sátira pós-moderna?

A revolução industrial parece ter acrescentado um tempero inesperado ao caldeirão cultural da modernidade. Ela inaugura o movimento de massificação, que se iniciou com os objetos e depois se estendeu às pessoas que, enfim viraram objetos, números numa planilha de gastos ou em uma urna eleitoral. Então a vida padronizada imposta pelo trabalho maquinal se estendeu à esfera da cultura, criando uma indústria do entretenimento que delimita um universo cultural pautado pelo lucro e pelo consumo de bens culturais, ou não. Se trata da funcionalização do tempo livre das pessoas, e a redução do indivíduo ao espectro do consumo, seja de bens ou de experiências, cerceando a principal instância de liberdade e pulsão disruptiva do ser humano: o seu imaginário.

Em traços bem gerais este foi o movimento desencadeado pela revolução industrial que transformou o projeto de emancipação iluminista em um projeto de alienação, sendo esta alienação uma das características constituintes da massa. Se trata de um momento de reformulação das formas de ser e estar no mundo cujo desenrolar ainda somos testemunhas.

Talvez este tenha sido o golpe decisivo ao projeto da modernidade. A massificação, dirá Baudrillard, não é uma nova reconfiguração do social, mas sim a sua implosão. É essa energia implosiva que caracteriza o pós-moderno, o fazendo decretar o fim de todas as instituições que vieram antes. A pós-modernidade é este momento em que decretamos o fim de tudo (da arte, da história, da filosofia, da verdade, do drama, da canção, do social, da modernidade) mesmo sem nada ter acabado de fato. Se trata apenas de duvidar da capacidade das pessoas e instituições de fazerem nascer o novo, ou então de darem continuidade a um projeto de sociedade capaz de emancipar os indivíduos.

O período pós-moderno em que vivemos é este momento em que a hiperinformação leva a um questionamento sobre a legitimação da ciência e da imprensa tradicional como narrativa dominante, e em que as grandes corporações se elevam sobre a autoridade dos estados. É também o início da era pós-industrial onde o advento do capital financeiro, aquele improdutivo, e as evoluções tecnológicas pintam um futuro caótico de desemprego global e crises sociais, uma vez que:

Esta lógica do melhor desempenho é sem dúvida inconsciente. Ela quer simultaneamente menos trabalho (para baixar os custos da produção) e mais trabalho (para aliviar a carga social da população inativa). Onde o critério da operatividade é tecnológico; ele não é pertinente para se julgar o verdadeiro e o justo” (LYOTARD, J.).

Segundo Lyotard esta seria uma das grandes contradições de nosso tempo, que a exigência pela eficiência seja contrária à uma concepção de bem estar humano.

“Nunca, em nenhuma época anterior, as grandes preocupações metafísicas, as questões fundamentais do ser e do significado da vida pareceram tão absolutamente remotas e sem sentido” (JAMESON, F). Esta constatação de Jameson aponta para um cenário de realização do projeto racional da modernidade, porém não resultando na emancipação dos indivíduos como se esperava, mas sim respondendo às exigências da funcionalidade e da eficiência segundo o imperativo da razão. Um mundo funcional se torna vazio de significado, sendo seu único propósito a otimização e o rendimento dos sistemas, onde “o sistema conhece unicamente as condições da própria sobrevivência e ignora os conteúdos sociais e individuais” (BAUDRILLARD, J). Na realização do império da razão a emoção e a imaginação são não só absolutamente inúteis, mas são também um desvio, um acidente a ser corrigido.

Como novo dispositivo de legitimação, o critério do desempenho impõe não apenas o abandono do discurso humanista-liberal, na medida em que seu objetivo é aumentar a eficácia. O importante agora não é afirmar a verdade, mas sim localizar o erro, no sentido de aumentar a eficácia. Nessas circunstâncias a universidade não tem mais o objetivo de preparar indivíduos eventualmente aptos a levar a nação à sua verdade, mas sim formar competências capazes de saturar as funções necessárias ao bom desempenho da dinâmica institucional.” (BARBOSA, W. V.)

Nesse cenário não há mais espaço para o surgimento poético da flor espontânea do mundo futuro. A previsibilidade, a eficiência e o funcionalismo são os novos motes dessa narrativa pós-moderna, que faz nos afastar cada vez mais do mundo natural da espontaneidade e da imprevisibilidade. Um dos sintomas do império da razão é nos fazer esquecer que a própria razão, assim como seus portadores, são também natureza.

Num universo assim purgado de natureza, a cultura necessariamente expandiu-se ao ponto de se tornar praticamente coextensiva a própria economia. A cultura nesse sentido, como inevitável tecido da vida, no capitalismo avançado, é agora a nossa segunda natureza” (ANDERSON, P.).

É nesse universo purgado da natureza que nos colocamos também um passo mais próximo do mundo das máquinas. Talvez por isso Habermas tenha relutado em aceitar a ideia da pós-modernidade. Existe uma pulsão revolucionária da modernidade, uma energia expansiva e disruptiva, assim como no modernismo, que aponta para a emancipação dos indivíduos e das coletividades. Decretar o fim da modernidade, para Habermas, talvez fosse o mesmo que perder a esperança.

Do modernismo ao pós-modernismo

A sagração da pós-modernidade - Jean-Michel Basquiat adentra os museus com sua arte que festeja a rua, os pretos norte-americanos e um anti-academicismo que suplanta o mercado da arte por meio do traço livre e dos ícones coloridos.
A sagração da pós-modernidade – Jean-Michel Basquiat adentra os museus com sua arte que festeja a rua, os pretos norte-americanos e um anti-academicismo que suplanta o mercado da arte por meio do traço livre e dos ícones coloridos.

No mundo das artes, o modernismo pode ser visto como um movimento que antecipa a pós-modernidade, uma vez que seu propósito, em traços gerais, diz respeito à desconstrução da forma, numa postura constante e crescente de questionamento das instituições modernas e de seu projeto.

No universo da pintura, a dissolução da forma e do tema, característico dos movimentos chamados de vanguarda artística, significa uma investigação sobre os fundamentos da pintura, às vezes tematizando a própria diluição da forma, num caminho progressivo rumo ao abstracionismo (pós-expressionismo Alemão), somente interrompido pela pós-moderna pop arte, sendo esta a primeira manifestação artística a tematizar esta nova configuração do social sob a égide das massas. Sendo por isso marco entre os especialistas na datação do pós-modernismo.

Mas foi no universo do drama que a implosão do social mas se fez sentir. A dissolução da sociabilidade burguesa já se fazia notar em Ibsen, Strindberg e Tchekhov, antevendo o momento conhecido como a crise do drama moderno. Esta exigência de funcionalidade e eficiência pós-revolução industrial parece ter minado no drama os motivos para o surgimento da fala. Essa nova configuração do social enquanto massa foi gradativamente acabando com as justificativas para o aparecimento da fala dos personagens, ou mesmo do seu papel ativo na construção de uma ação. Para, por fim, levar a um questionamento sobre a própria noção de personagem, uma vez que na massa, o indivíduo encontra-se desprovido da capacidade de uma ação transformadora. Em certo sentido vemos no drama teatral um movimento parecido com o ocorrido na pintura, onde uma gradativa desconstrução de sua forma levou a uma tematização de sua estrutura, de seus fundamentos, como em Beckett ou em Brecht, mesmo que por caminhos distintos.

No pós-modernismo, a grande mudança diz respeito ao estatuto da obra de arte e do próprio artista. Se no modernismo ainda vigorava a perspectiva clássica do gênio criador (típica do romantismo e herdeira da concepção grega onde as “musas” inspiravam os poetas) e a da obra de arte como produto do espírito humano, signo mais elevado da cultura e que expressaria a essência de um indivíduo ou de um coletivo; agora, na pós-modernidade, já não há espaço para o gênio criador ou para o espírito. Absorvida pela lógica de mercado e do consumo, a forma artística se acomoda na função de mercadoria, respondendo as exigências de funcionalidade e eficiência da pós-modernidade.

O pós-modernismo, então, enquanto fenômeno exclusivamente artístico, diz respeito a um grupo de especialistas que se recusam a se submeter a esta lógica mercadológica, mas que ao mesmo tempo se encontram desprovidos dos meios estéticos e das ferramentas artísticas que foram gradativamente sendo demolidos por todo o projeto do modernismo. Não restando nada além dos escombros metodicamente arquitetado pelos modernistas, ou das ruinas resultantes da implosão do social, o artista no pós-modernismo tateia no escuro e agarra tudo que é capaz de alcançar com as mãos.

A era da hiperinformação é também a era dos hiperestímulos e da hiperexcitação. Num ambiente, assim saturado de estímulos, existe uma deflação do sentido e a forma vazia se sobrepõe ao conteúdo. Nesse contexto dirá Baudrillard que a grande questão para a arte na pós-modernidade é: o que é que fazemos depois da orgia?

Referências

ADORNO, T; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

ADORNO, T. Filosofia da nova música. São Paulo: Perspectiva, 2002.

ANDERSON, P. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 2008.

BAUDRILLARD, J. El complot del arte. Ilusión y desilusíon estéticas. Buenos Aires: Amorrortu, 2012.

LYOTARD, J. O pós-moderno. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.

Conferências

HABERMAS, J. Arquitetura moderna e pós-moderna. 1982

HABERMAS, J. Modernidade um projeto inacabado. 1980.

JAMESON, F. Pós-modernidade e sociedade de consumo. 1984.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre o autor:

Alexandre Gnipper Trevisan é músico, poeta, filósofo, dramaturgo e professor de filosofia, sociologia e artes.

Instagram: @alexandregnipper

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