,AmarElo & Refazenda – Com Larissa Nunes

Por Marcio Tito.

Revisão: Aline Machado

O artista Emicida, agora historiador e Mc. AmarElo é tudo para ontem Netflix Emicida séries
O artista Emicida, agora historiador e Mc.

Numa polissêmica revisão da história, reconstituindo páginas outrora amassadas pelo viés europeu da narrativa social desse país (que Lévi-Strauss definiu como “uma cidade africana” quando desembarcou no Rio de Janeiro no começo do século que passou) o artista (e agora “historiador” musical) Emicida apresenta um pós-Brasil capaz de sambar o ritmo de um neo-samba. AmarElo é, sobretudo, um documento visual e afetivo acerca das tomadas de poder. Das tomadas de consciência. Sobre os acordes, acordos e acordares possíveis. Abaixo, intuições, indícios e suspeitas acerca desse processo. Com Larissa Nunes, uma “cantatriz que escreve”:

MT – Larissa! Obrigado por aceitar o nosso convite, é muito bacana poder criar essa interlocução com alguém que também está construindo uma forma de interação artística, seja no streaming, seja nas redes, na escrita, no teatro… Larissa, vamos iniciar com um exercício de imaginação? Se você precisasse apresentar este trabalho do Emicida, em poucas palavras…

Larissa Nunes – É uma boa pergunta! Eu começaria dizendo que este documentário é uma cartografia do imaginário do jovem em 2020, e imagino também que seja uma carta ao futuro. Digo isso não por ser uma apaixonada pelo futuro, e nem por jogar expectativas nele, mas por acreditar que seja muito importante o jovem dominar a narrativa do tempo presente, mas principalmente dialogando com passado, presente e futuro. O que o Emicida faz é explanar uma narrativa tecendo uma cartografia para os próximos que virão, e também para quem já está produzindo arte e contexto de existência no Brasil de 2020.

MT – Perfeito. Se eu precisar apresentar a alguém, roubarei sua fala rs. Olha, tradicionalmente eu não preparo as perguntas dessa conversa, para conversarmos com a liberdade de uma mesa de bar. Você falou de “cartografia” e isso me trouxe “mapa”. Aí “mapa”, “caminho”, “história” e “revisão”. Revisão, pra mim, é Refazenda. Aquela coisa do Gil! Quando ele fala sobre refazer tudo, e refazendo o municipal, a música, tudo isso num viés preto.

Larissa Nunes – Refazenda! É muito sobre Refazenda! Tem um lugar que é a participação histórica do jovem, que é muito terceirizada, e eu digo isso pela minha infância, pelo meu espaço de vulnerabilidade social, e a seguir pela oportunidade de acesso que tive quando ingressei numa universidade pública.

A sensação que tive ao perceber que eu estava perdendo coisas! Eu nunca havia me sentido participante das histórias que eu lia nos livros da escola. Acho que o Emicida trouxe isso, e também é um exercício nosso conquistar este sentimento para participarmos ativamente das coisas e dos processos históricos (porque isso não nos é dado!).

Nós contemplamos a história, os dados, as violências. E se vivemos apenas isso, vivemos por tabela e nos somamos às estatísticas, mas nunca enquanto exercício crítico de olhar ao tempo presente. Isso nos foi tirado, foi tirado da gente. Quando digo “a gente” eu sei que é muita gente, mas estou falando sobre uma parcela que teve poucos acessos. O jovem, de maneira geral, tem um olhar de fora. De fora dos atravessamentos da história, ainda que a geração anterior nos dê a missão de atualizar os fatos, nunca nos sentimos apropriados de fato. É um pensamento que me ocorre e que diz muito sobre isso de nunca nos sentirmos ativos politicamente. Eu sinto falta do jovem nas políticas públicas, e falta de uma apropriação jovem desses fatos da história.

Sinto que há um grande choque de gerações. E não é só o lugar da guerra, “da treta pela treta” ou velhos contra jovens. O que o Emicida faz não é etarista, ainda que importe dizer que é uma geração que reflete e que está de fato vivendo processos pioneiros. É para além da atualização. A gente não precisa atualizar o passado, porque assim como temos a oportunidade de transformar, também temos a capacidade de criar. É muito bonito ver um cara com menos de 40 anos, ainda dentro dos contextos de escassez e falta de incentivo na cultura, e de alienações, conseguir colocar um projeto dentro desse escopo (ainda que mainstream, ainda que mercadológico), mas com tanta missão.

E com tanta vontade de gerar acesso a outras narrativas para além da denúncia da violência. No momento mais violento da história recente o Emicida consegue compor uma obra poética – não alienante, não desviante, sem substituir a vibe do momento, mas sim trazendo poesia ao tempo presente, trazendo pessoas para conhecerem a trajetória de sucesso desse indivíduo e desse coletivo.

Um documentário Invencível! AmarElo é tudo para ontem Netflix Emicida séries
Um documentário Invencível!

MT – O jovem periférico e preto, ou periférico, ou preto, parece visto como cidadão de segunda classe, de fato. Sobretudo quando justaposto ao jovem filho das elites e que certamente produzirá a elite do futuro. Então eu tenho a impressão de que essa revisão, refazendo o lugar social do jovem é muito inteligente e determinante. Ele coloca, por exemplo, que “nenhum grande prédio é erguido sem a mão de um preto”. Portanto o preto sempre esteve na história, mas não enquanto narrador, mas sim enquanto narrativa de algum enunciador (branco e filho da elite que detém essa história).

O que o Emicida faz no Municipal é quase a forma prática de uma frase incrível do geógrafo Milton Santos que disse “o espaço é uma acumulação desigual de tempos”. O palco do Municipal, quando ele está com o Wilson das Neves, é uma acumulação de tempos sofisticada demais!

E achei muito poderoso quando você falou sobre o aspecto da poesia, sublimando o real e buscando uma revisão da realidade. Me lembra o Caetano quando diz que “gente é feita para brilhar e não para morrer de fome”. Eu vou falando e trazendo coisas, mas me lembro também do Zé Fernando, da EAD (Escola de Arte Dramática) que em uma aula disse “o que seria da sua obra se não fosse o capitalismo, o que restaria dela?”. E veja que é um marxista falando! Enfim, acho que o Emicida conquista isso quando fala muito sobre o sol, o sol que resiste no céu quando é capitalismo ou não na terra. Como quando ele fala das plantas, da força da horta e do amanhecer.

Larissa Nunes – Interessante você falar de “espaço”. Também lembro muito do Milton. Falar de acúmulo, numa perspectiva negra, é por si muito completo. Dentro da nossa historiografia o preto produz e é produto, e sempre entramos nessa lógica. E não é fácil desvincular, eu mesma ainda lido com o dilema do que é “ter” e do que é “ser”, e não que eu viva numa lógica capitalista, mas sim porque todas as coisas que eu tenho ganham significações pelos anos de ausência, pelos anos de falta de acesso do negro. Não é tão fácil elaborar o desprendimento do material e, principalmente, ressignificar a matéria quando se trata da vida negra.

É doido pensar que todos os homens pretos que ergueram prédios nunca tiveram nada para usufruir nessas construções, como se fossem donos de tudo e donos de nada, e essa dialética está sempre na vida do preto. Então existe alguma coisa no nosso imaginário que trabalha sobre a falta, sobre a ausência. Não vou negar que a galera jovem que não se sentiu apropriada da história também estava fazendo outras coisas. A gente foi fazendo, entrando no redemoinho enquanto éramos negados pela história. Criamos as nossas ruínas, sem dar satisfações à sociedade. Coisas que as pessoas veem como marginalizada nada mais são do que coisas que construímos a fórceps. Ninguém nasce querendo ser marginal, Tito, querendo ser abjeto das coisas. Todo mundo tem o desejo da inclusão, mas que bom que mesmo diante das injustiças subvertemos esse processo.

O que o Emicida faz é também dominar um território dele. Então não é sobre acesso ao mainstream. Não temos que ser gratos por fazer um show no Municipal, ou um documentário, mas também não estamos fazendo nada de “favor”. Então o documentário apresenta uma coisa didática em seu bastidor e didático em seu processo final, e esse encontro que o Emicida promove não é com a pretensão de incluir, nem para “trazer de volta”, e eu acredito que ele mostra uma hierarquia em ponto de vista do acolhimento e ancestralidade. É assim que vejo o carinho dele com o Wilson das Neves, com o Mário de Andrade. Não considerávamos esses artistas parte da nossa história, como fios que nos trazem para imaginários férteis, e o Emicida faz isso no documentário.

Sabe, destruir para que eu possa construir de outra maneira me interessa. Mas eu não quero somente o retorno. E eu acho que a gente faz um pouco isso sempre que a gente chega aonde as pessoas não imaginaram que chegaríamos, é destruir, pegar aquilo e derrubar, e dessas ruínas fazer algo novo. Então tem um lugar disruptivo quando pessoas pretas ocupam os espaços.

MT – Essa conversa é muito mais para deixarmos setas para quem ler ser direcionado para outros lugares, ou para confirmar coisas que estivessem previamente pensadas, assim, sabendo que deixo coisas inconclusas, deixo dito que é uma ruína planejada. Obrigado pelas intuições, pelas dicas, pelas suspeitas. E espero que quem nos lê fique inspirado a criar suas ideias a partir da nossa deriva. Até a próxima!!

Larissa Nunes – Espero que tenha sido uma conversa de pistas. É o que precisamos nesse momento, um pensamento que se constrói ao longo da experiência. Obrigada pelo espaço!

Abaixo, generosamente, alguns artistas deixaram seus pareceres elaborados com exclusividade para o Deus Ateu, no intuito de juntos incensarmos a obra do cantor:

“O filme do Emicida me emociona de forma particular e profunda, porque temos histórias e vidas parecidas. Compomos a mesma geração de jovens negros, vindos das periferias e que mudaram, com muita garra e trabalho, o rumo de seus destinos em um país estruturalmente racista. Menos de um mês depois do show histórico do Emicida no Theatro Municipal de São Paulo, pisei naquele mesmo palco (na primeira edição do Prêmio Arcanjo de Cultura) sentindo emoção semelhante a dele: a da conquista de todo um povo. Talvez, naquele fim de 2019, Emicida e eu tenhamos sido os únicos jovens negros a sentirem emoção semelhante no palco mais emblemático do nosso país. Ver seu trabalho ser aplaudido de pé por gente de todas as cores, prova que construir um outro Brasil é possível. Basta lutarmos juntos por isso.”

Miguel Arcanjo Prado @miguel.arcanjo – jornalista, crítico, dramaturgo e criador do Prêmio Arcanjo de Cultura.

“Deslumbre absoluto. Imperdível! AmarElo de Emicida é um canto de liberdade, de amor e união, em favor de uma visão multicultural de país, uma ode sublime que nos abraça, acolhe, restaura, nos anima e nos reúne naquele que talvez tenha sido o pior ano de nossas vidas.”

Ruy Cortez @ruycortez – diretor, pedagogo, curador teatral e dirige a Companhia da Memória

“AmarElo é um trabalho multimídia que transcende o que seria a mera junção de linguagens consideradas belas artes. O filme apresenta o que é a essência de Emicida – um rapper, músico, estilista, produtor e jardineiro – e denuncia, abre feridas para brancos e inspira e exalta os pretos utilizando-se do Theatro Municipal como uma metáfora da construção do Brasil por meio das mãos pretas que construíram, desenharam, cantaram, atuaram, ensinaram e se mobilizaram e que acabaram sendo esquecidas em nossa breve história de um país colonizador. Um trabalho arrebatador. Como mulher preta me senti acolhida a cada minuto do filme. Nunca mais olharei o Municipal com os mesmos olhos. Texto escrito em meio a muitas lágrimas.

Mariana França @marifrani – atriz e documentarista.

“Eu frequento o Teatro Municipal desde a infância para assistir a espetáculos de balé e teatro. De todas as minhas experiências, AmarElo, do Emicida foi a que mais me marcou, porque ele fez história naquele palco. A atmosfera que cercou aquele show foi além da performance em si, ela dizia a respeito daquelas pessoas que estavam presentes, sobre ocupar o espaço que foi privado dos negros por tantos anos. Foi contagiante sentir aquela alegria, eu olhava para o rosto de algumas pessoas que estavam ao meu lado na plateia, ora chorando, ora gritando os versos de protesto e empoderamento, como se aquelas vozes ressoassem para além daquele teatro. Emicida faz algo que transborda ao rap, ele traz a poesia nas letras, o acolhimento e também o esporro quando se faz necessário. Dentro do meu privilégio branco nunca sentirei as dores de se estar na pele negra, mas posso ser empática e ter muito respeito pela trajetória que artistas como o Emicida vêm construindo no cenário brasileiro, na oposição tomada por preconceito e pela barbárie política. A conscientização se faz necessária para que mais espaços sejam tomados por direito de qualquer cidadão, sem distinção social e racial.”

Karen Shimoda @keshimoda – Atriz e pesquisadora em dança e performance.

O documentário AmarElo está disponível no streaming Netflix.

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre a entrevistada:

Larissa Nunes é atriz, cantora e escritora paulistana. No teatro e no audiovisual coleciona alguns trabalhos em destaque como a série “Coisa Mais Linda”, da Netflix (2019-presente). Desde 2017 desenvolve sua escrita através de blogs como Medium, ZineZona e dramaturgias para formatos cênicos, nos quais segue em formação com outros autores, além de compor seus trabalhos musicais. Larissa é cantora e seu trabalho também está disponível nas principais plataformas digitais.

Instagram: @1larissanunes @roxapoeticascenicas

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