,Mulheres na Poesia, por Flávia Andrade

Por Marcio Tito.

Revisão: Aline Machado.

Flávia Andrade - autora e curadora. Mulher de artes
Flávia Andrade – autora e curadora. Mulher de artes

Vi a página @mulheresnapoesia surgir. Elegante, sempre ativa e com um recorte bem definido, aos poucos (porém numa velocidade enorme) o espaço gestado e administrado pela poeta Flávia Andrade passou a ocupar um lugar bastante oportuno – publicando e guardando versos de mulheres vindas de todos os tempos do Brasil atual e passado – a página se tornou uma referência, e um lugar para pesquisadores, pesquisadoras, artistas, leitores e leitoras em geral. Contudo todo recorte merece atenção e nesse caos não foi diferente. Intrigado com um projeto que já veio ao mundo sabendo o que seria, tomei da palavra e fiz o convite que procurava a cabeça por trás dos posts. Abaixo, com paixão e razão, Flávia Andrade, curadora e poeta, no Deus Ateu:

MT – Flávia! Sempre pergunto assim às pessoas com quem converso aqui no Deus – O que é que você não queria que fosse este trabalho? No seu caso, a página, o que é que você não queria que a página fosse logo quando você a idealizou, sabe? “Pode ser tudo”, exceto:

Flávia Andrade – Então a @mulheresnapoesia começou em julho de 2020, tanto no Instagram quanto no Facebook. E o que eu não queria que fosse era uma página que se assemelhasse a uma revista. O propósito não é só ser uma “revista de literatura”, ou de poemas. Mais do que isso: tudo o que eu não queria era que houvesse um processo burocrático de publicação, assim, desde o início a página publica TODOS os poemas enviados (por mulheres).

A página tem recebido uma quantidade grande de poemas, e isso tem trazido alguma lentidão na resposta para as poetas, por conta do tempo para leitura e publicação. Mas é ótimo que a quantidade esteja aumentando cada vez mais. A ideia é que seja “enviou, publicou”. Sem nada de burocracia. A ideia é que, nem agora e nem no futuro, seja algo formal como uma revista. As revistas já existem e fazem um papel fundamental e eu mesma, como poeta, tive alguns textos e vídeos-poesia publicados nessas revistas. Mas, @mulheresnasia, é para ser uma página aberta, livre e sem burocracia.

O objetivo principal da página é ser um espaço de divulgação e alcance da poesia feita por mulheres. Consagradas, desconhecidas, vivas ou não, publicadas em livro ou não.

MT – Perfeito! Sem uma categorização ou uma análise que transforme isso em “discurso”. É assim que a página fica tão arejada. Entretanto, dentro disso, aconteceu de você receber algo que você tenha precisado repensar esse valor ao ponto de não querer ou não publicar? (por política, ética, opinião violenta…)

Dentro disso – e você fique à vontade para responder qualquer lado dessa questão – alguma interação que tenha surpreendido?

Flávia Andrade – A página não publica prosa, contos e crônicas, o critério é que sejam poemas. Mas, respondendo a isso, a página é relativamente recente, talvez por isso ainda não recebemos nada que nos parecesse inadequado. E tomara que não aconteça rs. Também não me recordo de nenhuma interação fora do comum… Nem positiva e nem negativa. A página está num processo inicial, de se definir, se consolidar como um espaço amplo de divulgação.

MT – Acho interessante que o trabalho da página faz parte do imaginário, talvez pela sugestão da fotografia de capa ser “p&b” … Você dizer que a página é jovem, mas eu hoje, se precisasse como pesquisador encontrar poetas, iria direto na página rolar o feed e encontrar artistas de todos os tempos, espectros, idades, lugares…

Em alguma medida o seu trabalho é o de organizar a expressão de uma época e de várias épocas (mortas, vivas, enfim). Poetas que nunca publicaram! Dentro disso, eu não encontro referência de um trabalho que reúna tantas poetas em um só contexto. Isso, claro, deve influenciar na sua produção de poeta também. A poeta Flávia que, claro, já escrevia influenciada, mas qual a influência direta da curadoria que você tem feito na sua produção simbólica e prática de poeta?

Flávia Andrade – É muito bom saber que a página já soa assim, como uma referência! Acredito que está mesmo e isso é excelente. Eu também não me lembro, precisaria pesquisar para ser mais justa, mas não me lembro de cabeça de um trabalho que tenha exatamente esse propósito. Existem revistas, páginas que fazem parcerias, mas que seja como a @mulheresnapoesia, que publica também poetas completamente desconhecidas, eu acho que a “mulheres” está se tornando uma referência. Eu gostaria de conhecer outras, se existirem. É bom saber que já temos essa fisionomia, de um espaço que é referência para se conhecer novas coisas, ou reler, isso é muito bom!

Agora, com relação a minha produção escrita, poética, eu escrevo desde cedo. De tudo! Conto, crônica etc. Desde cedo, de adolescente. Leio e escrevo desde guria, mas poemas eu escrevo desde os vinte e poucos anos.

Em março de 2020, quando publiquei o meu primeiro livro (A Cidade do Tempo Cão e outros poemas de fissuras), pela Patuá, que faz um trabalho incrível, naturalmente passei a ter acesso à outros e outras poetas. E também comecei a ler muitas outras coisas – e foi aí que conheci revistas de literatura e poesia. Esse foi o começo. E aí surgiu a ideia de criar a página. Eu lia coisas incríveis, fenomenais, e achava absurdo que essas vozes, dessas mulheres, não tivessem um alcance gigantesco! Pensei “preciso fazer algo”. “Preciso mexer alguma peça nesse xadrez”.

Eu quis viabilizar a divulgação dessas mulheres que escrevem absurdamente bem. Que escrevem coisas absurdamente potentes! Inevitavelmente, ao criar a página, conheci cada vez mais influências. Acredito que a nossa escrita, assim como nós, como a nossa subjetividade, ela é constantemente transformada e reconstituída, ressignificada.

Eu sempre lembro da Clarice – “A escrita me é”. Eu sou a escrita e a escrita me é por completo. Não poderia ser diferente! Foi inevitável essa interferência, esse atravessamento dessas mulheres na minha escrita. Tenho a pretensão de lançar um segundo livro, sem nada definido ainda, mas já percebo que há na minha escrita características muito diferentes de “A cidade do Tempo Cão” que, como mencionei, já está publicado.

O primeiro livro da autora (responsável por engajar a artista na luta por um espaço diverso e amplo)
O primeiro livro da autora (responsável por engajar a artista na luta por um espaço diverso e amplo)

MT – Acho que qualquer pessoa bem informada já pode supor o significado de uma página que se debruça nesse recorte de publicação, e que carrega consigo esse nome. Mas, queria ouvir de você – por que mulheres na poesia, e por que exclusivamente mulheres?

Flávia Andrade – Para dar espaço para discurso, vozes poéticas de mulheres. Durante anos – e ainda hoje – conhecemos em todas as esferas do conhecimento e da arte a produção masculina: de homens. E a página é uma forma de radicalizar o espaço para as vozes das mulheres. Imagino que para além de Clarice Lispector, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles, existiram milhares de poetas brasileiras que foram nubladas, escondidas, por questões políticas que deram visibilidade apenas para homens, para poetas homens, que são importantes, mas que tiveram suas vozes quase que unicamente divulgadas, reconhecidas, legitimadas.

Historicamente, para a mulher ter a sua voz, o seu discurso, ouvido de fato, ou reconhecido de fato, é preciso bastante insistência. Me parece que ter uma espaço exclusivo para isso é uma obrigação. Ter esse espaço é MAIS do que uma forma de resistência ou tentativa de remediar essa trajetória histórica que, durante muito tempo, deixou invisíveis as mulheres e silenciadas as suas vozes. É um espaço obrigatório. E isso deveria ser feito por mim, por outra pessoa, em algum momento.

MT – Minha cabeça vai um pouco por aí, mas você apresenta palavras que eu não teria usado. “Radicalizar um espaço”, gosto muito dessa ideia.

Flávia, no caso da publicação das poesias na página, como é que fica o papel? É um desejo, ainda que não seja um projeto? Com você percebe a disputa entre o papel e o digital?

Flávia Andrade – Acho que nesse quesito a ordem do discurso se mantém, ainda que na produção poética. Existe um peso diferente quando você diz que uma poeta ganhou um prêmio, e quando você diz que uma poeta publicou dois ou três textos numa página, ainda que os da página sejam muito mais capazes de produzir afeto ou identificação que os da poeta publicada, isso porque os rituais discursivos existem e não vão deixar de existir. Ter livro é diferente, porque a tendência é reconhecer mais o livro.

O outro problema é que a arte no Brasil é pouco reconhecida, pouco difundida e pior ainda para a poesia. Não se vive de poesia no Brasil. Para se ter visibilidade é preciso investir dinheiro mesmo, em prêmios, concursos… No Brasil só se dá visibilidade à arte quando se tem o ritual. Isso é uma tendência no mundo e mais latente no Brasil. No Brasil você precisa passar por alguns rituais: uma publicação num site, numa revista, em livro, mais premiações, mais concursos etc. Acho que isso responde um pouco sobre essas diferenças.

MT – Sua página confirma muitas das suspeitas que eu já vinha alimentando, e é bonito ver confirmadas as qualidades que a gente já supõe, né?

A página já nasceu com identidade e com um percurso definido. Ela já nasceu com um discurso completo. Deixa pra nós um poema seu que, para você, aponte um pouco para esse lugar da página – de ser um espaço de radicalidade, de tomada de consciência

Flávia Andrade – Acredito que há uma intenção definida, mas o percurso só o tempo vai definir, transformar e re-transformar. Acredito que a poesia está plenamente viva e pulsante, a página é a prova disso: as mulheres poetas tem feito a poesia pulsar. Claro que há uma infinidade de poetas contemporâneos homens que são incríveis, mas há a necessidade de afirmar e reafirmar as vozes poéticas das mulheres. A produção delas traz outros lugares de vivência, existência, estética, outras dores e outras feridas na carne.

Nesse sentido, acho que cabe eu trazer um dos poemas mais recentes que escrevi e que deve entrar no segundo livro a ser lançado (sem previsão por enquanto).

Deixo aqui os versos:

Microversos da carne-viva

saber a perda antes da perda dói mais

pisar no tempo da cidade indolor

Procurar abrigo na pele rasgada pelo sentido

a mulher é o bicho que pisa o tempo

em carne-viva

MT – Lindo. Tem a característica de comentar o processo da dor. E reagir. Saber da dor e vivê-la porque processo. Ressignifica o impacto… Realmente, serve enquanto metáfora para a nossa conversa!

Flávia Andrade – Exatamente. Uma metáfora pra nossa conversa.

A mulher enquanto ser histórico, a travessia da humanidade, a sobrevivência e a criação. Mas, sobretudo, a mulher enquanto transformação do ser.

A mulher vive apesar dos silenciamentos e a poética das mulheres pulsa apesar das tentativas de silenciar. Por isso a mulher é o bicho em carne viva.

Isso é um caminho do meu segundo livro. Mas não vou dar spoiler rsrs.

Só adianto que há muitas poetas contemporâneas falando em mim: Mar Becker, Ingrid Morandian, Wanda Monteiro, Manu Bezerra, Natasha Felix, Danuza Lima e muitas outras…

Agradecemos pela leitura da nossa entrevista.

,Sobre a autora:

Flávia Andrade é psicóloga, poeta e docente. Mestre em Filosofia e doutoranda em Psicologia de formação; poeta e inquieta de pele. Autora do livro “A cidade do tempo cão e outros poemas de fissuras” (Editora Patuá). Seu primeiro livro foi citado entre os 20 destaques na categoria poesia de 2020 no site Literatura e Fechadura. Teve poemas publicados em várias revistas de literatura como: Ruído Manifesto, Mallarmargens, Acrobata, Arribação, Revista Toró etc. Curadora da página Mulheres na Poesia.

Instagram: @mulheresnapoesia / @fla.andrade9

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