,Ângelo – Um conto de Natal

Por Marcio Tito.

Revisão: Aline Machado

Da obra de Junior Santos - para o conto de natal do Deus Ateu
Da obra de Junior Santos – para o conto de natal do Deus Ateu

Ângelo.

É natal no planeta Terra de hoje e a cola da noite vaporosa compõe o horizonte colorido. Uma ventania gelada encontra uma outra ventania gelada, e dentro do espaço geométrico entre os prédios, comprimido pelo asfalto paulista, o vento assobia um lírico de moça contra o sideral dezembrino.

Ângelo está sentado no parapeito da janela da sala de seu apartamento e, sob a vigilância do céu e das estrelas, enxerga, escuta e percebe o silêncio.

Mastiga, sobressalta e digere a lacônica ausência de som. Não está ansioso, não fuma um cigarro e não segura uma cerveja. Sua mente “urbanopata”, e ainda desesperada por significados mágicos, a um só tempo em que medita, por hábito, ansiosa, rompe sempre com a própria meditação.

Ele pondera e desenvolve soluções mentais para os problemas materiais de sua vida, mas não deixa de sentir a presença de uma influência cósmica que o salvaria de balas perdidas e overdoses medicamentosas. No fundo, ainda que abatido pela realidade, Ângelo acredita que alguma esperança o observa pelo lado de dentro das possibilidades misteriosas.

No sonho, sem drama, resolve todas as atrapalhações do passado e pede perdão para cada um dos ofendidos.

O coração dispara quando Ângelo evoca na mente a fisionomia de quem o odeia. E nessa hora, ainda que isolado no parapeito da sala de seu apartamento, Ângelo esconde o rosto e apresenta as mãos abertas em primeiro plano.

Existe uma disforia que não se cala nunca na mente e tudo o que deu errado no passado se impõe sem deixar espaço para a solução. O pensamento não regenera diante da influência da angústia e todos os objetos parecem os exorcistas de uma culpa inconfessa.

RG e CPF próprios repetem-se numericamente fantasmagóricos (e, aos poucos, filiação e batizado se consomem numa exaustão de suicida).

Busca na memória por dias que possam revelar algum padrão em seu comportamento e durante alguns minutos finalmente deixa de saber quem é. Ângelo está convencido de que a mente do sujeito deprimido guarda em si um dispositivo criado para nos fazer escapar de nós mesmos quando estamos correndo perigo diante de algum dos nossos inveterados julgamentos inclementes.

É preciso vencer a mente para conhecer a própria identidade e, assim, diante desta, realizar algum tipo de assembleia que enumere os defeitos do homem sem ego!

Espectro, sujeito ambidestro numa multidão sem rosto. Nu, sem a cor dos olhos tristes, sem o desenho da barba simbólica, definitivamente compreende que seria irreconhecível até mesmo para a própria mãe, para o próprio pai, para o cão, para outros cães, para o vendedor da farmácia e para o espelho do banheiro, e para o banheiro, e para o próprio órgão sexual, e para a potencial selfie do celular agora descarregado e ainda fora da tomada.

Conforme condena a si, num átimo de feitiço da depressão, vai desaparecendo também do vocabulário dos outros.

Da obra de Junior Santos - para o conto de natal do Deus Ateu
Da obra de Junior Santos – para o conto de natal do Deus Ateu

Incapaz de ser grupo, de ser par ou vendedor de loja, por instinto numa febre natalina, conta quantos dedos possui nas mãos e fica um pouco calmo quando percebe que diante da morte ainda é gente e tem dez dedos, e ainda possui a capacidade matemática de contar dedos para combater o processo de despersonalização das mãos.

Viaja pelos defeitos dos avós maternos e paternos e pelos defeitos da pátria. Soma as tragédias do pai e da mãe, elenca as dificuldades dos tios, prevê a infelicidade dos sobrinhos e a sua própria, desacredita da moeda que o Banco Central expede e desconfia de que as fábricas de galinha estejam mesmo vendendo galinhas congeladas e hábeis para o consumo imediato.

Reafirma a sua opinião sobre não ter filhos, sobre não ter cachorro, sobre não precisar casar-se antes dos trinta e cinco anos.

A espuma, por debaixo da capa do sofá, densa como é, acaba sempre puxando os olhos e não é raro que ele torça o pescoço para tentar olhar para dentro do sofá, como se fosse possível capturar a essência humana do objeto almofadado.

É como se as pessoas que ali já estiveram sentadas tivessem deixado naquele corino algum tipo de indício e pista para o futuro. Ele olha para o tecido da realidade e espera que do vazio se erga alguma voz sentada na solidão daquele estofado.

Está sentado no parapeito da janela da sala de seu apartamento e agora, ao menos, segura o trinco da janela com uma das mãos. Está um pouco salvo de salvar-se pela saída de emergência da vida.

Os gênios da literatura permanecem mudos dentro dos volumes enfileirados na estante.

Um cachorrinho late na escuridão que ele supõe compor os corredores do edifício onde está sentado no parapeito da sala de seu apartamento.

Vultos de prédios são também vultos de pessoas dentro das janelas dos apartamentos que cercam o janelão onde os seus pés oscilam e o vento bate.

As sombras de uma civilização tão amargamente distante, próxima e melancólica por natureza. Fria, gélida e ainda assim aparentando uma rara e abjeta imortalidade.

O futuro não existe todos os dias.

Ele está sentado no parapeito da janela da sala de seu apartamento, mas quer agora deitar na cama do quarto de visitas. Não na sua própria, mas na cama do quarto de visitas. Quer visitar a si. Quer saber como é que os outros se sentem quando dormem em sua casa. Quer ser recebido como ele próprio recebe os outros para saber se os outros estão um pouco felizes com essa coisa toda que cerca o anfitrião e a visitação de uma casa.

Agita a cabeça, quer que os pensamentos caiam pelos ouvidos. Expulsa dos ombros qualquer inquietação que cerque o enigma da morte. Estranhamente, sentindo vontade de mijar, pergunta-se sobre o enigma da existência então.

Pensava estar no controle de seu descontrole, pensava ter criado boas histórias para continuar seguindo a vida, pensava ser mesmo um homem dentro dos destinos que a realidade estraçalha sem saber que estraçalhou, mas a imposição do mijo o arranca da janela e salva a sua.

Seja como for, feliz ou infeliz, no controle ou em pleno desgoverno, ele desiste de saltar.

O frescor da noite carrega até seus ouvidos os seus próprios suspiros aliviados.

Sente-se o nativo de um país impossível. Encosta os pés no chão e agora escorre um pouco de urina pelas pernas de alguém que nessa noite não morrerá nunca mais.

Caminha até o banheiro, lava as mãos e o rosto. Sente-se limpo do campo magnético da morte. Agora que sobreviveu, cheio de vida, pensa em cuidar melhor da saúde. Alcança uma garrafinha com água e premedita uma salada de folhas sem carne ou carboidratos.

Seus olhos insistem em olhar para a janela em busca de algum resquício de sua própria imagem (como se um espectro resistisse para sempre no parapeito dos vivos quando o suicida desiste do salto).

Após rodilhar a sala em busca do que não está mais lá, observa o pontilhado de luminosos e pensa que a neblina produz na madrugada o efeito de uma metrópole pesada e efêmera.

Corre e salta!

No ar, assistindo o volume de si viajar em linha reta contra o mundo, enxerga-se velho numa das janelas dos andares mais baixos. Cabelos brancos e olhos fundos estão no reflexo dele que pulou jovem e agora despenca idoso.

Sobrevive.

E diante do inusitado de não estar morto, aflito por estar vivo após o salto, pega o elevador e volta ao templo de seu apartamento.

Troca a calça mijada que rasgou na queda e respira fundo encostado na parede.

Incontido, pensando em anjos, corre e salta outra vez e de novo encontra o chão.

Ainda vivo, com apenas uma dorzinha no tornozelo esquerdo, sobe de elevador e corre para o espelho, mas o espelho está sem pilhas!

Corre até a pia, enche uma vasilha com água e vê a sua própria juventude refletida no metal e na ironia da água translúcida.

Abismado por ter vencido o abismo e por continuar moço após envelhecer durante a queda, letárgico e sombrio, ofendido pela impossibilidade da morte por ele arquitetada, enrola o seu próprio corpo indestrutível em uma manta e assiste a terceira temporada de House of Cards.

Observa o janelão. Embala em silêncio o seu próprio choro espantado e pensa na reversão do milagre, caso ele telefone para contar para algum parente que pulou duas vezes pela janela e não morreu em nenhuma das quedas.

Sente sono e adormece espraiado no tapete. A operadora de celulares envia um feliz natal. O smartphone ilumina o apagão da noite e pisca na tela o ícone da mensagem não lida.

“Ângelo, aproveite o final do ano e renove o seu plano!”

Da obra de Junior Santos - para o conto de natal do Deus Ateu
Da obra de Junior Santos – para o conto de natal do Deus Ateu

Agradecemos por ler o nosso conto de natal.

,Sobre o ilustrador:

Junior Santos, tem vinte e quatro anos, é artista plástico, ilustrador e quadrinista profissional. Autodidata, nunca se formou em nenhuma das áreas em que atua profissionalmente, com exceção do cinema. É formado em atuação e arte cinematográfica pela “Verzini Escola de interpretação e cinema”.

Começou a sua carreira profissional aos 19 anos trabalhando como ilustrador e artista conceitual para filmes, desenhando e criando storyboards e personagens. Dois anos depois migrou para os quadrinhos e criou sua primeira HQ “A Rua da Luz Vermelha”. Em 2019, com 23 anos, sua HQ participou do concurso online criado pela plataforma de quadrinhos “AGAKÊ” no qual foi campeão. Atualmente trabalha ilustrando livros, contos, capas de discos e quadrinhos.

Instagram: @juniorsantii

Faebook: @conceitovulgo

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