,Ensaio sobre a perversão II: E o feminino?

Por Caio Ribeiro.

Revisão: Aline Machado.

Nicolaes Maes, Bisbilhoteira e dois amantes (Alegoria do sentido de audição), aproximadamente 1656-57. Pintura a óleo. Londres: Casa de Apsley (Quarto de Piccadilly). 57.5 x 66 cm.
Nicolaes Maes, Bisbilhoteira e dois amantes (Alegoria do sentido de audição), aproximadamente 1656-57. Pintura a óleo. Londres: Casa de Apsley (Quarto de Piccadilly). 57.5 x 66 cm.

Neste nosso novo ensaio retornaremos a conceitos importantes sobre a perversão sexual e, a partir disso, com novos paradigmas: a perversão é uma estrutura presente exclusivamente nos sujeitos masculinos e, sendo assim, apenas homens são perversos? Reconhecendo a existência de apenas três estruturas, então o que sobra às mulheres? Apenas a neurose e a psicose? Não há outra saída? Quais são suas formas de desejar? O que deseja uma mulher?

Para iniciarmos essa discussão, torna-se necessário lembrar-se de dados importantes: 1. A perversão não está necessariamente relacionada à maldade e/ou perversidade; 2. A perversão faz parte da constituição infantil de todos os sujeitos; 3. O sujeito estruturalmente perverso é aquele que frente à castração (angústia) infantil, desautoriza a cena traumática, negando-a e não admitindo sua própria Falta; 4. Nem todos os estudiosos reconhecem a perversão como uma estrutura, e é importante ratificar neste ponto que a perversão feminina é um tema bastante complexo de ser discutido, pois muitos que reconhecem a perversão estrutural, não reconhecem que ela pode se constituir na mulher.

Para entendermos melhor a ideia sobre a inexistência da perversão nas mulheres, precisamos retornar ao ano de 1927, quando Freud inaugura sua obra intitulada “Fetichismo”, garantindo que havia atendido alguns pacientes cujas escolhas objetais eram dominadas por um interesse sexual em objetos que não tinham fins sexuais (como pés, botas, casacos de pele etc.). A partir da escuta desses pacientes, tal fetiche passa a ser entendido como um substituto importante de algo que falta e, para pensar nisso, retoma-se à sexualidade infantil: Quando criança, o menino ainda não sabe diferenciar a realidade dos corpos masculinos e femininos e acredita que por ser ele possuidor de um pênis poderoso (também entendido aqui como falo), todos os seres vivos também o possuem, mas o real sempre nos atravessa… Tal fantasia é quebrada quando a diferença sexual é apontada a seus olhos, em algum momento durante a constituição, inevitavelmente essa criança terá contato com o corpo da mãe e com a diferença anatômica, reconhecendo-a como castrada, não possuidora deste pênis que até então era universal. Neste momento do contato visual, a fantasia de castração aparece e a mãe que até então era completa, passa a ser faltante. Dois importantes fatores estão em jogo: A possibilidade de perda do lugar de falo da mãe e o risco de também tornar-se castrado, afinal: se a mãe que é tão poderosa não foi poupada da castração e teve o pênis arrancado, o próprio pênis também está em perigo.

Pensar na mãe como um ser faltante, suscetível a desejar outras coisas (pois se algo falta, abre-se o campo de desejar algo que complete) passa a ser inadmissível, então a percepção visual é negada e, para defender o imaginário da mãe potente (e também o próprio pênis), é feita a eleição de um fetiche, garantindo um triunfo sobre a castração, uma vez que tal fetiche substituirá a ausência do falo (pênis) na mãe, formando assim um compromisso entre a angústia de descobrir que a mãe é faltante e o desejo de possuir uma mãe fálica.

Safatle (2010), propõe-se a fazer uma releitura da obra de Freud acerca do fetichismo, em “Fetichismo – Colonizar o Outro”, infere que o fetiche aparece como meio de encobrir algo que deseja fortemente ser revelado, e que é eleito a partir de um elemento que antecede a percepção da castração, uma última visão antes da descoberta traumática sobre a ausência do pênis na mulher, atribuindo, portanto uma preponderância dos fetichistas em eleger pés ou sapatos como objeto de prazer, uma vez que as crianças perceberiam os órgãos genitais dos pés para cima.

“Haveria uma fase de desenvolvimento sexual anterior que o fetiche marca com o véu do esquecimento por ser uma “lembrança encobridora” (Deckerinnerung), ou seja, uma recordação que desloca o verdadeiro núcleo do acontecimento, que nos fixa em algo que apenas encobre um acontecimento que deve ser revelado. Trata-se, assim, de insistir que há algo antes da imagem congelada pelo fetiche.” (p. 49).

O fetiche é um tema amplo e complexo que nos demandaria muito tempo para esmiuçar ao leitor, portanto essa breve, introdutória e resumida explicação da teoria nos serve como auxílio para entender a negação da perversão feminina: Se o fetiche é um dos mecanismos da perversão, e ele é desenvolvido após o reconhecimento da falta de pênis na mulher, como poderia a mulher – que já se reconhece como castrada e se familiariza desde muito cedo com a falta do pênis – elege um fetiche? E se não desenvolve um fetiche, como poderia então servir-se da perversão? A partir deste paradigma, muitos entendem que a perversão não se é estruturalmente feminina. Mas, será?

Na contramão de grande parte dos estudiosos da psicanálise, vamos reconhecer a perversão como não sendo definida pelo gênero do sujeito, mas pela forma que ela se manifesta em sua forma de desejar, retomando a definição do primeiro ensaio e também do breve resumo feito no início deste: a perversão está relacionada à forma de lidar com a falta e negá-la, além de criar estratégias de terceirizar a angústia e não se reconhecer como ser faltante, privatizando uma lei universal, transformando-a em uma lei particular, fechada em si mesma. Partindo deste princípio, como ela se manifestaria na mulher?

Os mecanismos que acontecem na menina criança ainda são pouco teorizados, o que dificulta o estudo e o entendimento destas perversões. Campos (2010) leva como referência estudos clínicos e arrisca na menina uma identificação primária à mãe, favorecendo que o desenvolvimento não se construa a partir de uma “inveja do pênis”, mas de uma condensação de dois sentimentos controversos: de um lado a identificação com a “mãe fálica” e, de outro, o ódio da “mãe-mulher” que possui o falo paterno, fazendo com que em uma segunda instância a menina precise se identificar com o pai para alcançar a mãe, já que ele pode oferecer à mãe aquilo que ela, enquanto mulher, não pode.

Para facilitar o entendimento e visualização das formas de desenvolvimento da perversão feminina, utilizarei extrações de duas obras visuais das quais tenho bastante apreço, e acredito que servirão didaticamente para o entendimento da explicação anterior: A série “Bates Motel” e o filme “A professora de piano”. É importante ressaltar que são leituras pessoais realizadas sobre as obras, de acordo com meu contato com as teorias das perversões femininas.

“Bates Motel” foi uma série desenvolvida para nos apresentar a adolescência do famoso vilão de “Psicose”, Norman Bates, e a relação doentia que era estabelecida com sua mãe. Neste momento o que nos interessa não é a desenvoltura ou pré-disposição da personagem para a evolução de sua doença, mas o lugar que sua mãe o coloca e a forma como contribuiu para sua patologia e atos criminosos.

Norma Bates é apresentada como uma mulher bastante determinada e uma figura extremamente protetora, que a todo momento demonstra um excesso de zelo pelo filho. No decorrer dos episódios começamos a perceber o quanto o filho não cumpre apenas a função de filho, mas também de uma extensão corporal da própria mãe, que não permite que ele tenha experiências comuns da idade – como envolver-se em aventuras sexuais ou aproveitar as irresponsabilidades da juventude – sempre agindo de forma castradora e limitante. É interessante pensar que os nomes das duas figuras se confundem (Norma/Norman), nos levando a pensar no lugar de completude que esse filho ocupa na vida dessa mãe. Toda essa função, que salva Norma do encontro com a falta, é sublimada através do cuidado excessivo e preocupação doentia que impede o filho de se individualizar, não possuindo espaço aqui para um terceiro nessa relação. Norman serve como escudo do furo narcísico de Norma, que não sustentaria uma experiência na qual se enxerga como pessoa faltante e, a partir daí, não permite que Norman deseje coisa alguma, apenas ela podendo supri-lo: serve-se do falo, como o falo serve-se dela. O filho-fetiche não pode sair dessa relação, caso contrário ela, a figura de mulher impotente, seria exposta, destruindo a cena construída a esmero desde o início da gestação.

Ao contrário de uma maternidade devastadora que acompanhamos na história de Norman, “A professora de piano” nos apresenta Erika Kohut – magistralmente interpretada por Isabelle Huppert – uma mulher solteira, sem filhos que divide a casa e a cama com uma mãe extremamente dominadora, na qual a relação é composta de violência e agressividade por Erika procurar se desvencilhar dos traços controladores da progenitora. Essa vida tediosa deixa de nos convencer de que não há emoção quando exibe as noites de Erika, que frequenta cinemas eróticos da cidade para satisfazer suas fantasias proibidas, se aproveitando do ambiente e dos restos de gozo que ali foram encerrados. A postura fálica, onipotente e segura da professora desenvolve a paixão de um aluno que articula diversas situações para poder aproximar-se e, ao obter êxito, é envolvido pela cena perversa. Neste ponto, é necessário retornar ao pensamento da perversão: Precisamos lembrar que a estrutura não admite angústia ou apontamento da falta, então não permitirá que o outro a exponha. Retomemos ao primeiro ensaio, lembrando que a falta é exposta a partir do desejo, afinal: se eu estou desejando algo, alguma coisa me falta. Como então um perverso evita que a falta do outro apareça?

Se você respondeu “impedindo que ele deseje”, você entendeu um dos mecanismos perversos e é dessa forma que Erika atua no primeiro encontro sexual com o aluno apaixonado, ela o masturba e, quase que em uma cena necrófila, permite que ele se mexa ou aproveite, garante por diversas vezes que se ele falar, ou se mover, acabará com o encontro e irá embora, e é assim que tudo se desenvolve. Erika se torna o objeto inatingível do aluno e, ao promover o lugar de intocável, transformando-se em fetiche, mexe com a fantasia do outro e o angustia, alimentando seu próprio prazer e alcance do gozo. Precisamos lembrar que o perverso tem medo de “sujar” o amor e por este motivo não abre espaço para que essa fantasia seja modificada. A melhor forma de não alterar essa criação é congelando a participação do seu convidado que, neste recorte, é o aluno enfeitiçado pelos seus encantos e onipotência. Em uma frase emblemática, ela afirma; “Eu não tenho sentimentos, Walter. É melhor se convencer disso. E mesmo que viesse a tê-los, nunca subjugariam a minha inteligência”, e neste ponto precisamos concordar, não há forma mais inteligente de não se machucar com o amor e se haver com a falta, do que evitar senti-los.

Para tanto, a perversão na mulher se apresentará de duas formas: ou em sua experiência com a maternidade, ou no seu próprio corpo, colocando-se como fetiche de uma outra figura, amparada em suas próprias leis. Na experiência da maternidade, o filho torna-se o falo, e nesta experiência podemos pensar nas mães que transformam seus filhos em seu próprio fetiche, enveredados por seus desejos e obstinações, transformando, assim, em uma experiência devastadora. Enquanto na experiência materna o filho torna-se o falo, na experiência corporal a própria mulher transforma-se nele, não o possuindo, mas o sendo de forma completa e, ao tornar-se falo, torna-se desejada e o objeto que falta para favorecer a completude da outra figura.

Referências

A PROFESSORA de piano. Michael Haneke/Les Films Alain Sarde. França: Arte France Cinéma, 2001;

BATES motel. Carlton Cuse/Justin Greene. Estados Unidos: Universal Television, 2013;

CAMPOS, Denise. A perversão feminina e o laço social na atualidade. Tempo psicanal. Vol.42, Rio de Janeiro, 2010.

FREUD, Sigmund. Fetichismo. In: Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. I. Rio de Janeiro: Imago, 2006

FREUD, Sigmund. Um caso de histeria, três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos, volume VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

IZCOVICH, Luis. A perversão e a psicanálise. São Paulo: Aller editora, 2019.

MATTERA, Patrick. Perversão nas mulheres ou perversão feminina, uma questão de sexuação. Rev. Latinoam. Psicopatol. Fundam. Vol.17 no.3 supl.1, São Paulo, 2014. < disponível em: https://doi.org/10.1590/1415-4714.2014v17n3-Suppl.p720.13 >

RIBEIRO, Caio. O triunfar sobre a castração: uma análise psicanalítica da perversão a partir do filme “crash – estranhos prazeres”. 2012. 67 f. TCC (Graduação) – Curso de Psicologia, Centro de Saúde, Universidade Nove de Julho, São Paulo, 2012. Cap. 5.

SAFATLE, Vladimir. Fetichismo: colonizar o outro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

Acesse também para conferir a parte 1 desse artigo: Ensaio sobre a perversão I: O amor, o cotidiano e a clínica.

https://www.deusateu.com.br/textos/perversao-amor-cotidiano-e-clinica

Agradecemos pela leitura do nosso artigo.

,Sobre o autor:

Caio Ribeiro é psicólogo clínico, graduado pela Universidade Nove de Julho e especialista em clínica psicanalítica e psicologia organizacional com ênfase em saúde mental pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), certificado em curso complementar de clínicas e estruturas lacanianas e freudianas pelo Instituto Real Psicologia.

Instagram: @caio_psycho @psiquespaco

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s