,O indizível no dizer de Clarice Lispector

Por Priscila Fernandes.

Revisão: Aline Machado.

Retrato de Clarice Lispector
Retrato de Clarice Lispector

Recentemente, em 10 de dezembro de 2020, foi comemorado o centenário da escritora brasileira mais lida e traduzida mundialmente dos últimos tempos: Clarice Lispector. Hoje, já são incontáveis os trabalhos e pesquisas acadêmicas em torno das obras dessa brilhante e misteriosa autora, que nos deixou um universo literário atemporal, por isso sempre tão atual, com uma linguagem própria que muitas vezes nos implica e nos representa mediante aos conflitos psíquicos de suas personagens no cotidiano de suas vidas. Um raio-X da subjetividade humana em forma de palavra escrita.

Atuante na beira do abismo, ela alarga seus limites e sempre avança um pouco mais, sempre consegue dizer um pouco mais a respeito do que escapa às palavras. Através de sua “livre escrita”, assim como na livre associação de Freud, quem a lê também consegue se ater aos significantes que estão nas entrelinhas que o sujeito do inconsciente de Clarice deixa escapar ao tentar, muitas vezes, apreendê-lo na escrita, nos dando uma sutil ideia de quem é também Clarice Lispector para além do que nos é apresentado referente à autora. A verdade é que a escritora se reconhecia, com espanto, ser um mistério para si mesma.

O biógrafo Benjamin Moser, nos traz em seu livro “Clarice”, com a primeira edição publicada no Brasil em 2017 pela Companhia das Letras, uma biografia completa, complexa e profunda juntamente com um contexto psicológico e cultural necessário para nos aproximarmos dessa grande escritora, representando um marco indispensável para quem quiser sentir mais de perto a vertiginosa essência de Clarice Lispector. Moser nos conta que Clarice, enquanto residia na Suíça, frequentou um terapeuta, Ulysses Girsoler, que lhe aplicou um prolongado teste de Rorschach, dando-lhe um psicodiagnóstico interessantíssimo. “Girsoler foi o primeiro de uma longa série de psicoterapeutas que ou se apaixonaram por Clarice, ou tornaram-se apegados demais a ela para serem capazes de atuar com a distância analítica apropriada”.

Clarice parece escrever para se perceber naquilo que escreve, da mesma forma que discursamos ao nosso analista para nos percebermos naquilo que estamos dizendo na tentativa de dar voz ao sujeito do inconsciente, tão elidido, efêmero e fugaz da consciência. Em “Perto do coração selvagem, seu romance de estreia que teve um grande impacto crítico elogioso, Clarice nos apresenta Joana e toda sua subjetividade a céu aberto, como Joana vai se constituindo ao longo da narrativa de seus conflitos cotidianos, ora como filha, ora como mulher, ora como amante:

“Poderia dar-lhe um pensamento qualquer e então criaria uma relação entre ambos. Isso é o que mais lhe agradava, junto das pessoas. Ela não era obrigada a seguir o passado, e com uma palavra podia inventar um caminho de vida. Se dissesse: estou no terceiro mês de gravidez, pronto! Entre ambos viveria alguma coisa. Se bem que Otávio não fosse particularmente estimulante. Com ele a possibilidade mais próxima era de ligar-se ao que já acontecera. Mesmo assim, sob o seu olhar “me poupe, me poupe”, ela abria a mão de quando em quando e deixava um passarinho subitamente voar. Às vezes, no entanto, talvez pela qualidade do que dizia, nenhuma ponte se criava entre eles e, pelo contrário, nascia um intervalo. “Otávio – dizia-lhe ela de repente – você já pensou que um ponto, um único ponto sem dimensões, é o máximo de solidão? Um ponto não pode contar nem consigo mesmo, foi-não-foi está fora de si”. Como se ela tivesse jogado uma brasa ao marido, a frase pulava de um lado para o outro, escapulia-lhe das mãos, até que ele se livrasse dela com outra frase, fria como cinza, cinza para cobrir o intervalo: está chovendo, estou com fome, o dia está belo. Talvez porque ela não soubesse brincar. Mas ela o amava, àquele seu jeito de apanhar gravetos. ”

Claramente, neste trecho, Clarice nos dá a dimensão da respiração subjetiva, o esvaziar-se com a palavra (expiração), o intervalo, vazio que o Outro propõe ao emissário do dizer, e ao se preencher novamente com novas palavras que tentam dar conta do indizível (inspiração), daquilo que escapa ao sujeito, mas que sempre retorna com um “incômodo” existencial, primordialmente identificado e verbalizado como angústia.

A autora se utiliza da palavra para pescar “a palavra”, o “significante mestre”, ou seja, ela joga com a própria isca para pescar o que lhe escapa, e talvez, chegar aonde não sabe, mas para onde se vai sem saber. Leyla Perrone-Moisés nos diz:

“A literatura nunca está afastada do real. Trabalhar o imaginário pela linguagem não é ser capturado pelo imaginário, mas capturar, através do imaginário, verdades do real que não se dão a ver fora de uma ordem simbólica. […] A linguagem é obstáculo, no caminho do real, mas é também possibilidade de fundá-lo. Fora da ordem da linguagem, o real é apenas caos.”

É nesse movimento de dar “nome a coisa”, que Clarice constitui-se como uma teia na qual ela mesma é tecida, convidando também o leitor a se tramar em seu próprio movimento subjetivo: “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida…”.

Sua obra póstuma publicada em 1978, um ano após sua morte, intitulada “Um Sopro de Vida (Pulsações)”, também é exemplo de como Clarice se utiliza da escrita para se constituir e se desconstituir paralelamente, nos incitando ao mesmo movimento provocado por seu modo de ver, apreender, sentir a vida e transpô-la em palavra escrita. Alguns críticos literários situam “Um Sopro de Vida” como uma obra inacabada de Clarice Lispector, já que quem a organizou, editou e publicou foi sua secretária e amiga Olga Borelli. Ainda assim, formado através de fragmentos organizados, escritos pela autora ao longo de sua vida, essa obra é primorosa e parâmetro para muito material de pesquisas e interpretações psicanalíticas.

Clarice cria um Autor que cria outra autora (Ângela Pralini), que também cria sua obra, permitindo, de fato, uma construção ativa, como diz Clarice pré-prefácio: “Quero escrever movimento puro”. O personagem Autor se duplica ao criar Ângela e, assim, ambos vão se constituindo e constituindo suas próprias estórias dentro da estória. Nesse prisma linguístico, podemos associar à formação do próprio indivíduo, efeito da identificação imagética com o Outro e simbólica pelo discurso do Outro, mas ao se tornar quem se é, se paga um preço, o preço de jamais chegar a ser na totalidade, ou seja, sempre haverá a hiância, pois somos seres faltantes e, justamente por sermos faltantes, é que a roda da vida gira e nos faz avançar.

Se, desde Freud, sabemos que o que se aloja no inconsciente é aquilo cuja existência a consciência rechaça e nega, convertendo-o, portanto, em algo inacessível, Lacan, após sua releitura da obra freudiana à luz da linguística, reformula o inconsciente como uma estrutura de linguagem, constituído por cadeias de significantes, situando o campo do Real como aquilo cuja formulação é inalcançável, que não pode ser completamente simbolizado na palavra e na escrita e que, por conseguinte, enquanto o sujeito lutar para arrancar a palavra que o nomeie, não cessará de se escrever, e é essa busca que nos arremessa para a vida e nos faz escrever nossa própria estória na história.

Ao mesmo tempo que a palavra é o veículo essencial para a comunicação e a formação do sujeito, Clarice também consegue chegar à dimensão do silêncio pela própria palavra e em toda sua obra esse movimento é perceptível, movimento muito parecido com o processo analítico, onde a fala livre do analisando o leva a se descobrir onde não se pensava existir, como nos diz Lacan em um de seus famosos aforismos: “existo onde não penso”. Aqui estão alguns trechos que nos mostram a genialidade de Clarice em bordear o vazio quase que o pegando pelas mãos, ressaltando e revelando o “nada” que nos habita e nos constitui pelo todo que a palavra consegue chegar e quase dar conta de nomear o inominável:

“Eu também não sei não pensar. Acontece sem esforço. Só é difícil quando procuro obter essa escuridão silenciosa. Quando estou distraída, caio na sombra e no oco e no doce e no macio nada-de-mim. Me refresco. E creio. Creio na magia, então. Sei fazer em mim uma atmosfera de milagre. Concentro-me sem visar nenhum objeto – e sinto-me tomada por uma luz. É um milagre gratuito, sem forma e sem sentido – como o ar que profundamente respiro a ponto de ficar tonta por uns instantes. Milagre é o ponto vivo do viver. Quando eu penso, estrago tudo. É por isso que evito pensar: só vou mesmo é indo. E sem perguntas por que e para quê. Se eu penso, uma coisa não se faz, não aconteço. Uma coisa que na certa é livre de ir enquanto não aprisionada pelo pensamento.”.

“…olhar a coisa na coisa hipnotiza a pessoa que olha o ofuscante objeto olhado. Há um encontro meu e dessa coisa vibrando no ar. Mas o resultado desse olhar é uma sensação de oco, vazio, impenetrável e de plena identificação mútua. Deus me perdoe creio que estou divagando sobre o nada. Mas uma coisa eu tenho certeza, esse nada é o melhor personagem de um romance. Nesse vácuo do nada inserem-se fatos e coisas. O que se vê nesse modo de tornar tudo absolutamente do estado presente, o resultado não é mental: é uma forma muda de sentir absolutamente intraduzível por palavras.”.

“…ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e, no entanto, vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão…”

“…nesta densa selva de palavras que envolvem espessamente o que sinto e penso e vivo e transforma tudo o que sou em alguma coisa minha que, no entanto, fica inteiramente fora de mim. Fico me assistindo pensar. O que me pergunto é: quem em mim é que está fora até de pensar?…”

Nesses quatro trechos selecionados, quase conseguimos sentir a angústia de chegar perto do núcleo indizível, o “real lacaniano”, que só pode ser apreendido através das formações inconscientes bordeadas e sustentadas pelo campo imaginário (representações) e simbólico (linguagem), mas que não cessa de se inscrever e de querer se fazer representar e ser ouvido.

Inúmeros são os trechos a serem lidos à luz da teoria psicanalítica, a obra que Clarice Lispector nos deixou é de uma riqueza linguística do começo ao fim, desde o estilo com pontuação própria, marca que caracteriza também a autora, até a liberdade em escrever fluído, como em seu romance intitulado “Água Viva.

Em 1977, Clarice concedeu uma rara entrevista ao repórter Júlio Lerner, da TV Cultura. Depois de gravada, a autora pediu que a entrevista só fosse divulgada após sua morte. Foi ao ar dez meses depois. Clarice morreu em dezembro de 1977, aos 57 anos, de câncer ovariano. Nessa célebre entrevista, Clarice impacta primeiramente com seu olhar profundo e distante. Hermética e introspectiva, Clarice responde somente o que lhe pergunta o jornalista e não se estende em suas respostas. Questionada sobre o início de seu ofício como escritora, Clarice diz: Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever. Ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu faço questão de não ser uma profissional para manter minha liberdade.”

Liberdade essa pré-santificada em toda sua obra, de fato, e é justamente com essa “livre escrita” que Clarice se aproxima daquilo que tentamos nos afastar o tempo todo, a angústia proporcionada pelo vazio, pela falta constituinte, inata à existência humana. Por isso Clarice Lispector é a autora do Real, é a autora que aproxima o indizível no dizer.

Ao final da entrevista, Júlio pergunta: “mas você não renasce e se renova a cada trabalho novo?”. E Clarice encerra dizendo:Bom, agora eu morri. Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta. Estou falando do meu túmulo.”

Clarice passou toda uma vida tentando existir através da escrita, não porque não quisesse, mas parece mais por não ter tido escolha de não querer. E assim como Clarice, existimos porque somos constituídos através e pela linguagem, não por livre escolha, mas por não ter a opção de não escolher.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre a autora:

Priscila Fernandes é leitora de Clarice Lispector e tem como ofício a prática analítica. Formou-se como analista da escola (AE) na Escola de Psicanálise Estrutural (EPE).

E-mail: priscilafpicolo@gmail.com

Instagram: @priscilafpsicanalise

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