,Documento Mandalorian

Por Karen Shimoda e Flavio Teixeira.

Créditos da imagem: Lucas Film e Disney Mandalorian Disney Star wars
Créditos da imagem: Lucas Film e Disney

The Mandalorian, certamente, foi um grande acerto dos estúdios Disney em parceria com a Lucas Filmes. Os fãs mais antigos, em sua maioria, se decepcionaram com a franquia que trouxe a trilogia de “O Despertar da Força (Episódio 7)”, “Os Últimos Jedi (Episódio 8)” e “A Ascensão Skywalker (Episódio 9)”. A estratégia que envolveu a troca de diretores no processo deu diferentes tons à saga que, forçosamente, trouxe J.J. Abrams para encerrar o último episódio.

Eu, particularmente, estava determinada a parar de acompanhar as franquias, acreditando que, claramente, se tratava de um produto para uma nova geração que não a minha, que acompanhou os outros seis episódios. The Mandalorian, ou traduzido para o português como “O Mandaloriano”, estreou em 2019 no canal de streaming Disney +, e veio até então sem pretensões de competir ou dar sequência a saga. Até então, tratava-se de um universo alternado ao que conhecíamos, nos apresentaram novos personagens como, inclusive, o extremamente carismático e doce, “Baby Yoda”. No decorrer desta matéria, entrevistarei meu amigo Flavio Teixeira, que é roteirista, cosplayer de George Lucas e colega na Mauricio de Sousa Produções. Quando nos esbarramos nos corredores da empresa falamos por horas de cinema e Star Wars.

Karen Shimoda: Quando assisti o primeiro episódio de The Mandalorian, senti como se estivesse vendo Star Wars pela primeira vez, a mesma emoção de quando eu era criança, tomada pela paixão que me guia até hoje. Como foi para você assistir a série e se ela te surpreendeu de alguma forma?

Flavio Teixeira: Eu adorei Mandalorian, porque tive a mesma sensação que você teve de resgate do clima da trilogia original! Eu acho que quando o trabalho é feito com amor e respeito ao criador (Salve George!) você consegue sentir isso em cada frame na tela! As referências, o clima, tudo evoca o que nos fez apaixonar por Star Wars lá atrás! Só resta dar parabéns ao Jon Favreau e Dave Filoni pela graça alcançada!

Karen Shimoda: Em resumo, a série acompanha a jornada do Mandaloriano em busca de outros Mandalorianos. A surpresa é o encontro inusitado com Baby Yoda. De que forma, ao seu ver, os roteiristas conduziram a jornada para que nos envolvêssemos com os personagens em questão?

Flavio Teixeira: A Jornada de roteiro foi muito bem montada desde o início, quando o primeiro episódio termina com uma cena já icônica! Baby Yoda funcionou e caiu no gosto do público não só pela sua fofura, mas sim por sua conexão com o Mandaloriano que vai ao longo da temporada construindo uma relação de pai e filho! É uma progressão emocional fantástica, porque aprendemos na trilogia original que Boba Fett era um vilão, então o nosso preconceito com o personagem se forma e se quebra desde o início de forma sensacional por conta desse serzinho que possui a força dentro dele!

Karen Shimoda: [SPOILER] De todos os arcos de personagens, tivemos grandes surpresas e aparições inusitadas. O quão importante você acha que foi a entrada da Ahsoka Tano e Boba Fett?

Flavio Teixeira: Eu achei genial, porque como disse Filoni e Favreau são fãs da saga que a respeitam! Eles escrevem e dirigem para fãs de verdade que se emocionam em como seus personagens queridos são tratados! Isso aconteceu com os episódios de Ashoka e Boba Fett até culminar com a cereja do bolo no último episódio da segunda temporada! Esse respeito é maravilhoso e diametralmente oposto ao que o infeliz do Rian Johnson tomou em todo filme do Último Jedi! Respeito aos personagens, respeito a George Lucas que criou todo esse universo! This is the way!

Karen Shimoda: Inicialmente, a série me conduziu a olhar para o universo como um pós-episódios 7,8 e 9, agora sabemos que ele aconteceu entre as duas trilogias. Você acredita que The Mandalorian possa construir “uma ponte” entre elas e nos explicar coisas que ficaram subentendidas, como por exemplo, o caminho escolhido por Luke Skywalker?

Flavio Texeira: Eu sinceramente acho que tem que enterrar a trilogia 7, 8 e 9 dentro de uma caixa de chumbo, e concretar e salgar a terra e fingir que ela não aconteceu! Mandalorian cria uma perspectiva muito melhor e de como deve ser o caminho a ser seguido para o futuro de Star Wars! Com respeito ao fã e não à desconstrução sem sentido pura e simplesmente pra tentar inovar e alcançar um resultado que não agrada os fãs de verdade de Star Wars!

Créditos da imagem: Lucas Film e Disney Mandalorian Disney Star wars
Créditos da imagem: Lucas Film e Disney

Karen Shimoda: Algumas críticas apontam a série como estratégia para comercializar produtos da empresa, como o personagem Baby Yoda, por exemplo, que foi um dos brinquedos mais vendidos o ano passado. Você acha conflitante que a narrativa seja pautada por uma estratégia comercial ou ambas podem coexistir (beneficiando o estúdio e o licenciamento Disney)?

Flavio Teixeira: Eu acho essa crítica vazia! Star Wars desde o início trabalhou o merchandising junto aos filmes! Eu acho que isso seria ruim se houvessem roteiros ruins e medíocres pra “vender” um determinado personagem ou nave que seja! A verdade é que em duas temporadas não existe um único episódio ruim! Todos são muito bons pra excelentes! Tudo muito bem construído, bem amarrado e cheio de easter eggs que fazem a nossa alegria! Atire a primeira pedra num Hutt quem não viu um episódio e não ficou com vontade de comprar um Baby Yoda!

Karen Shimoda: [SPOILER] Certamente o episódio final da última temporada nos marcou e emocionou, tanto pelo vínculo criado pelo Mandaloriano com o Baby Yoda, como pela aparição surpreendente do Luke Skywalker. Pensando pelo aspecto do roteiro, como você viu essa estratégia de trazer este personagem emblemático de volta à ação, sendo a única pessoa possível para treinar o Grogu?

Flavio Teixeira: Foi um dos melhores episódios que vi por que ele trouxe Luke de volta não pra fazer fan service de graça! Ele serviu pra mostrar pra um certo diretor de como se trata com respeito um personagem! Ele é forte e poderoso na força e jamais jogaria o seu sabre de luz no mar! Ver alguns vídeos de reacionário dessa cena por verdadeiros fãs é algo que emociona e nos aproxima nesse sentimento: quase todos os fãs tiveram a mesma reação de incredulidade (ao ver a nave X Wing se aproximar), permanência da dúvida (ver o Jedi de preto em ação e mesmo assim se questionar se realmente é ele) e a constatação final (quando ele tira o capuz e vemos que é realmente Luke Skywalker)! A emoção de todos é genuína, porque é assim que o personagem merece ser tratado! Ninguém melhor para treinar Baby Yoda no fim do episódio, que ainda nos quebra com a fantástica despedida entre Grogu e o Mandaloriano!

Karen Shimoda: A meu ver, ter diferentes diretores conduzindo os episódios, não fez com que houvesse uma quebra no ritmo da série, pelo contrário, enriqueceu pelos diferentes olhares sob a direção. O que você achou da estratégia usada pelo estúdio?

Flavio Teixeira: Foi muito bom e meio que emulou o que aconteceu na primeira trilogia que tivemos três diretores diferentes também (Lucas, Kershner e Marquand). O importante é que tanto na trilogia original como em Mandalorian, a equipe está afiada com o espírito do seu criador e isso ajuda a dar mais coesão a tudo!

Karen Shimoda: E por fim, conseguimos levar a franquia por quanto mais tempo? Ou isso é impossível de prever?

Flavio Teixeira: Star Wars é um fenômeno cultural mundial! Acho difícil de prever, mas eu espero que se continuarem a tratar com carinho e respeito que lhe é devido, ela dure muitas e muitas gerações! Que a força esteja sempre com a Saga! Sempre!

,Sobre os autores:

Karen Shimoda, designer gráfica e pesquisadora. @keshimoda.

Flavio Teixeira, roteirista na empresa Mauricio de Sousa Produções. @flaviothauoh.

Outras palavras (aspas colhidas para que outras intuições participem das possibilidades deste debate):

“O que me chama atenção quanto à série não é a jornada do herói como é vista mais uma vez na franquia, mas sim como ela é produzida e apresentada. Os cruzamentos entre a produção gráfica e os elementos “reais” em cena geram um trabalho de ambientação e imersão do espectador para com as imagens, o trabalho do estúdio resgata princípios usados amplamente nos episódios clássicos e os alinha com a produção gráfica dos episódios mais recentes. Mandalorian é fruto de anos de crescimento cinematográfico do universo Star Wars, se desdobrando em mais um enredo da franquia que une as melhores práticas já testadas e aderidas para com seu público. Sem dúvida ele entrega toda a experiência narrativa da melhor qualidade que o fã das sagas procura a assistir.” – Guilherme Paes é designer, professor de design e editor de design e cultura no site Deus Ateu. @paranhospaes.

Foi fomentada naqueles filmes de westerns (os faroestes), uma narrativa muito interessante sobre a jornada do herói. O ambiente não é nada favorável para a sua sobrevivência, é hostil, árido, faminto. Você é mais uma presa e, por isso, você tem que estar sempre em modo de ataque. Se isso já era cativante em um deserto específico que permeia uma cidadezinha cujos conflitos são dados no cemitério de Sad Hill, quando elevado para a Galáxia é melhor ainda, mais diverso e até mais representativo (quem diria que uma atriz latina interpretando uma togruta ia dar tanta discussão). O último fator que está ora em sussurros ora em gritos é o clima político. The Mandalorian troca o contexto da Guerra Civil para a criação de uma ditadura (A Primeira Ordem). Tirando as explosões, jetpacks, aliens e trilha sonora bacana, nem precisamos de muito para trazermos o regime autoritário em construção para o nosso contexto hoje. – Aline Machado é linguista, consultora na área de comparação de locutor e revisora de quadrinhos. É revisora do site Deus Ateu. @alinefromearth

“The Mandalorian” é uma série completa, não só porque entrega o universo mítico de “Star Wars” e entrega uma gama de fan service no decorrer de seus episódios (que faz qualquer apaixonado pela saga ficar extasiado), mas também por seus elementos que vão desde os clássicos faroestes até a conexão quase que direta à obra máxima dos mangás “O lobo solitário” (de Kazuo Koike e Goseki Kojima). Justamente os gêneros inspiradores de George Lucas na trilogia original. “The Mandalorian” expande o universo “Star Wars” agregando não só o fã antigo, mas os novo também – Fabricio Castro é diretor teatral, ator e, por vocação, cinéfilo. Também fundador da Cia Sem Censura, importante companhia surgida no começo da década de vinte dos anos dois mil, destinada a justiçar o diretor judicialmente censurado àquela oportunidade no quando agora da montagem “Edifício London” (que permanece inedita). @fabricio.fidel

O roteirista tem apenas uma função. Escrever histórias que auxiliem ao máximo a filmagem. Para isso, precisa até sacrificar na linguagem e expressão para atingir o objetivo. O roteiro não é para escrever bonito, é para escrever funcional. Lembrem-se sempre: O roteiro é a primeira coisa que vai para o lixo quando termina o dia de filmagem. Notei muitas referências em Madalorian. Star Wars? Não. Eu vi “O Lobo Solitário”, o icônico mangá japonês. O pai mercenário (porém, honrado) conduz o filho Daigoro pelo caminho da redenção. Alguma semelhança? Todas. Também lembrei de “Cowboy Bebop”. Um anime sobre caçadores de recompensas. Existem muitas outras referências. Por isso, é inegável a importância da leitura e o estudo. Quanto mais estudar, você terá mais possibilidades de criar algo melhor. Porém, como toda boa obra, Madalorian ultrapassa as referências. É esse o objetivo de toda e qualquer criação. Criar algo novo a partir (ou melhor, na soma) dos já criados, enfim, criar algo melhor. A simplicidade de The Madalorian é uma lição para todos os criadores. Se mantenha e persiga as essências. Lá, encontrará o mito, o belo e o sublime. – Nick Farewell é escritor e roteirista, e autor de “Go”, um clássico da editora Devir. @nickfarewell

A aristocrática franquia de Star Wars, em seu último momento, vem buscando se afinar com o espírito de seu tempo. Deixando a linhagem familiar dos Skywalker de lado, em Mandalorian a trajetória do herói é explorada em outros termos. Mando inicia essa trajetória quando decide deixar de agir em função de recompensas para ajudar o indefeso Gogru, mesmo que isso signifique ser marginalizado por sua ordem. Se trata do sacrifício, do salto de alteridade de quem age sem esperar nada em troca, significando e simbolizando a sensação e a ideia de esperança. – Alexandre Gnipper é filósofo e professor de filosofia, músico e dramaturgo. Contribui periodicamente com o site Deus Ateu. @alexandregnipper.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

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