,CRAZY TRAIN – Um conto de Mário Bortolotto

De Mário Bortolotto, ilustrado por Marcelo Freitas.

Revisão: Aline Machado

Ilustração de Marcelo Freitas
Ilustração de Marcelo Freitas

CRAZY TRAIN

Lembro do meu corpo esticado sobre o cobertor.

Os olhos semicerrados numa luta inglória contra o sono. A paisagem na janela passando rápido demais.

Lembro dela me dizendo que há várias maneiras de enlouquecer e que pra se manter lúcido é necessária uma força de vontade sobre humana e uma fé hercúlea na vida.

E aqui estava eu, sem força de vontade e sem fé, na cabine de um trem luxuoso, debaixo de um cobertor em batalha contra o sono que me dificultava admirar a paisagem quase homogênea das cidades do interior da França. A impressão que eu tinha é que o trem não saía do lugar ou que estava fazendo uma viagem cíclica como um trem de brinquedo como a gente via nos filmes onde garotos ricos vestindo ternos e gravatas borboletas que não combinavam com eles ficavam acocorados imitando o barulho dos antigos trens de passageiros. Não era o caso desse trem, quase silencioso, uma espécie de Maglev japonês, uma silenciosa chinchila assassina pronta para pular no seu pescoço enquanto você admira a traiçoeira fumaça que sai de uma chaminé.

Enlouquecer é sair dos trilhos, foi o que disse a ela na ocasião em que me inquiriu sobre a minha suposta loucura. Ela ficou rindo daquele jeito que você não tinha certeza se ela estava mesmo rindo. Isto é, quem não a conhecesse podia apenas pensar que ela estava tentando tirar alguma sujeira inoportuna dos dentes enquanto mexia a boca daquela maneira meio desordenada. Mas eu sabia que ela estava rindo. Eu sabia que ela ria de mim. Ela escarnecia de mim. Acho que isso é o mais correto a se dizer. Estou lembrando disso agora. Devia lembrar disso com tristeza. Mas na verdade um sentimento de vitória se apossa de mim. O sentimento de saber que estava certo.

Eu não estava enlouquecendo.

Mas sim, eu estava mesmo saindo dos trilhos. E talvez fosse mesmo uma espécie de loucura. Por isso, esse trem. Agora que eu podia escolher como fugir, como se manter longe de tudo o que me deixava desesperado. De tudo o que me deixava apto à loucura real.

Senti aquele cheiro forte e enjoativo de colônia barata francesa, pelo menos eu traduzi o cheiro que senti dessa maneira. O meu rinencéfalo não é mais eficiente que o de ninguém.

Mas eu me especializei em traduzir cheiros e batizá-los de conluio com minha imaginação detetivesca.

Me levantei e abri a porta que dava para o corredor. Não havia ninguém lá. Pensei: “Devo estar ficando mesmo maluco”. Há muito eu já havia aceitado e dado as boas-vindas à loucura. Ela se avizinhava, assoprava um jazz West Coast no meu ouvido, recitava um poema do Gregory Corso, me provocava com fotos de Elaine Stewart.

A loucura sabia se fazer sedutora.

Eu estava pronto para ela.

Me sentia bem andando de chinelos e calças de pijama pelos corredores do trem. Se alguém quisesse me tirar de louco, que ficasse à vontade. Os loucos, assim como os velhos e crianças, deveriam ter o direito de não dever explicações a ninguém.

Eu estava me tornando um velho, tinha alma de criança e incontestavelmente estava ficando louco.

Eu tinha uma espécie de imunidade diplomática. Eu fiz por merecer.

Adentrei o vagão-restaurante debaixo de olhares curiosos e censores. Escolhi uma mesa perto da janela. O garçom passou com uma bandeja. Imaginei a cabeça de Salomé na bandeja enquanto João Batista corria nu pelos corredores do trem gargalhando e cantando “Bark at the moon”. João Batista era um maluco que acreditava estar abrindo o Mar Vermelho para seu primo de Nazaré passar com seus doze alistados. Todos os doze dispostos a morrer pelo Mestre assim como João também estava. Todos loucos. Sempre medi a loucura pela quantidade de vezes que uma pessoa está disposta a morrer por outra ou por uma causa. Por si só não vale. Aí é negociação, contrato assinado com sangue e data de vencimento, Cérbero uivando na porta do seu quarto. Morrer por amor sempre me pareceu uma atitude cínica. Ou simplória dependendo da ocasião e dos personagens da farsa. Quem morre por amor quer permanecer vivo eternamente na lembrança da outra pessoa. Sempre me pareceu uma atitude mesquinha e egoica. Ninguém morre por amor numa atitude altruísta. Quem morre por amor é um egoísta mimadinho que não sabe perder.

A minha taça de vinho chegou. A que eu pedi assim que sentei antes mesmo de olhar o cardápio. O garçom perguntou:

“Tinto, senhor?”

“Quem você julga que está a sua frente?”

“Um senhor muito distinto”.

“De pijamas?”

“Não defino as pessoas pelas roupas que vestem”.

“Mas eu poderia simplesmente ser um senhor distinto que acabou de acordar e se sentiu à vontade para vir beber o seu vinho tinto com as mesmas vestes que usa para dormir, certo?”

“Perfeitamente, senhor. Seco ou suave?”

Dessa vez não respondi. Apenas lancei para ele um olhar ameaçador do tipo “se você cair na besteira de me trazer uma taça de vinho doce, vou enterrar esse garfo na sua laringe”.

Ele pareceu entender e se apressou a ir buscar a minha taça. Saboreei a bebida e lhe dirigi um olhar quase sereno, o que muito o tranquilizou.

Passou pela mesa uma atriz que julgo ter visto em alguma série de gosto duvidoso em uma dessas madrugadas insones em que fico martelando o controle remoto desgovernado. Ela passou mexendo as ancas de maneira desordenada e meu olhar acintoso acompanhou o seu traseiro petulante e protagonista de fantasias masculinas, embora acredite que a atriz em questão jamais tenha realmente atuado como protagonista nem mesmo em peças de teatro amador no interior do estado. O seu traseiro estava contraditoriamente à frente de suas ambições e possibilidades profissionais. Eu ainda estava admirando o charmoso, evidente e inquestionável talento da candidata à starlet quando passou pela minha mesa um diretor de cinema muito famoso. Ele parecia radiante como alguém que havia acabado de traçar um pudim de chocolate com amêndoas. No ato já imaginei a starlet acocorada no chão do banheiro presenteando o diretor com um laborioso boquete enquanto ele gemia e lhe prometia um papel com alguma relevância em seu próximo filme.

Alguns são mesmo privilegiados.

Outros se julgam com sorte se o garçom trouxer a taça de vinho certa. Eu me julgava com sorte. Mas começava a ter certeza da minha loucura. Até então apenas uma suspeita que eu insistia em julgar infundada, apesar de todas as evidências.

Foi então que a notei, exatamente quando ela tirou o cardápio da frente do rosto. Parecia do tipo que demorava a fazer as escolhas certas. Libriana, sem dúvida. Aquele tipo de mulher que você vê nos filmes e ela sempre se julgando não merecedora dos olhares dos homens, sempre acreditando que está alguns quilos acima do aceitável. Sempre invejando a amiga popular da escola. Mas na verdade, ela é escandalosamente bonita, tão bonita que os maquiadores do filme não conseguiram estragar. E aí ela vai se transformando no decorrer do filme. Se transformando no objeto de desejo de toda uma geração. Mas na verdade, não houve transformação nenhuma. Ela já era indubitavelmente linda. E todos já haviam notado isso, mas era extremamente prazeroso entrar no jogo e acompanhar a tal transformação que ocorreria no decorrer da história. Ela também me notou. Eu era notável enfiado naquele pijama de bolinhas azuis.

Me levantei, matei a taça de vinho e fui até ela. Fiquei de pé em frente a sua mesa.

“Você tava me olhando.”

“Não. Você é que estava.”

“Isso também é verdade. Mas não elimina o fato de que você estava realmente me olhando.”

“Curiosidade zoológica. Você está vestido com um pijama de bolinhas azuis. Se não quer que o olhem com curiosidade, então deveria usar trajes mais discretos e adequados ao ambiente.”

“Eu realmente estava te olhando. É bonita demais para não querer que a olhem.”

“Está flertando comigo? Eu tenho idade para ser…”

“Minha irmã mais jovem. Seja gentil.”

“Muito mais jovem.”

“Vou concordar se me convidar para sentar.”

“Eu não vou convidar… mas pode sentar se quiser.”

“Obrigado.”

Ela olhou por cima dos óculos que parecia ser um loopaz, algo sofisticado e que ficava muito bem servindo de proteção para seus olhos curiosos e atrevidos. Os mesmos olhos que agora estavam pousados em mim, me analisando. Belos olhos.

“O quê? Você disse alguma coisa?”

“Não, eu só pensei.”

“Nos meus olhos?”

“Como você sabe?”

“Algumas pessoas são fáceis de ler.”

“Eu sou assim?”

“Você está com sede?”

“Por que pergunta isso?”

“É só uma pergunta. Você estava tomando vinho.”

“As pessoas tomam vinho quando estão com sede?”

“As pessoas gostam de se enganar.”

“Não eu.”

“Claro que não. Você tem certeza que está louco.”

“Como sabe?”

“Algumas pessoas…”

“Ok. Ok.”

Ela ficou em silêncio me encarando.

“Talvez eu deva voltar para minha mesa.”

“Talvez você deva.”

Nesse momento entrou no vagão um senhor de uns 70 anos muito estiloso tocando um acordeom Eagle preto. Agora eu já tinha certeza que estava mesmo enlouquecendo. Ele veio sorrindo direto para nossa mesa. Ela segurou o meu pulso pressionando ele contra a mesa.

“Me pede em casamento.”

“O quê?”

“Me pede em casamento. Agora.”

“Do que você tá falando? Você tá louca?”

“Na Rússia o acordeom era usado em pedidos de casamento. Se a noiva recusar, o acordeom tem que ser quebrado.”

“Nós não estamos na Rússia e eu não vou fazer isso.”

“Não vai o quê? Não vai quebrar o acordeom?”

“Não vou te pedir em casamento.”

“Por que não? Não quer casar comigo?”

“Eu sequer te conheço.”

“Mas veio até minha mesa.”

“Foi um erro.”

“Pede logo.”

“Caralho. Quer casar comigo?”

“Não.”

“Não???”

“Não. Agora você vai ter que quebrar o acordeom dele.”

“Eu não vou quebrar o acordeom do cara.”

“Faz parte. Tudo faz parte.”

O cara do acordeom ostentava um sorriso angelical. Eu não ia quebrar o acordeom dele. De jeito nenhum. Eu não queria participar daquela brincadeira de maluco. Eles estavam todos mancomunados com o único propósito de me enlouquecer.

Acredito que existe um lugar subterrâneo onde a realidade se mistura com outros departamentos. São como salas num lugar escuro e onde não há inscrição nas portas.

Quando você se dá conta, entrou na sala errada. E aí já é tarde demais. Acho que a loucura se dá nesses momentos que você aturdido entra na sala errada. A loucura se percebe apenas quando já é tarde demais.

Eu estava correndo pelos corredores do trem.

Eu via as pessoas. Elas se pareciam com outras pessoas. Trotsky, Paulo César Pereio e o Príncipe Valente. Eles me olhavam com desconfiança enquanto Sandra Bréa sorria para mim.

Entrei em um vagão onde estava acontecendo um baile de carnaval.

Eu pensei: “não tenho porra nenhuma a ver com carnaval.”

Bem, eu também não tinha nada a ver com Trotsky. Mas ele estava lá. Entendi que no grande filme da loucura você não pode escalar o elenco.

Um grupo de foliões animados tentou me fazer entrar na festa. Eu só queria escapar.

Continuei correndo, abrindo caminho no mar de entusiastas por bailes profanos. O baile mais profano que cheguei perto em toda a minha vida foi uma discoteca no salão paroquial da igreja onde tocava Patrick Hernandez.

Foi quando alguém segurou meu braço e me puxou. Era uma garota de cabelo chanel e com uma máscara veneziana. Ela me puxou para um canto escuro, me beijou e tirou a máscara. Ela era a Elina Löwensohn.

Aquilo ficava mais louco a cada momento. Elina Löwensohn me pegou pela mão e me levou para o outro vagão onde estava tocando uma valsa vienense e casais dançavam.

Acordei sobressaltado como acontece quando você acorda de um pesadelo.

Olhei pela janela do vagão. Já era noite. Eu estava com meu pijama de bolinhas azuis. O cheiro adocicado de perfume francês era ainda mais forte. Me levantei e abri a porta que dava para o corredor. Ela estava lá, segurando a taça de vinho.

“Você é do tipo que não termina o que começou?”

“Do que você tá falando?”

“A taça de vinho.”

“Então…”

“E se eu reconsiderar?”

“O quê?”

“O pedido de casamento.”

“Eu tô ficando louco?”

“Há pessoas incontestavelmente sãs que costumam fazer essa mesma pergunta todos os dias olhando pro espelho.”

“Eu quero terminar…”

“O quê?”

“O vinho.”

Ela me estendeu a taça. Sorvi o conteúdo de olhos fechados. Fiquei assim um tempo. De olhos fechados assobiando “So tired”.

Quando abri os olhos, ela não estava lá.

Não sentia sequer o cheiro irmão da cadaverina que estava afligindo meu olfato. Não havia mais nada lá.

Apenas um homem provavelmente enlouquecido dentro de um pijama ridículo de bolinhas azuis segurando uma taça vazia.

Talvez a loucura seja só isso.

Um trem sem destino. Um homem sozinho. Nenhum lugar para onde ir. Nenhum lugar acolhedor para onde voltar. Lá fora, traiçoeiramente enganados, os homens que se julgam sãos enfileiram suas frustrações sobre cobertores felpudos em salas vazias com suas televisões ligadas adiando o momento inevitável de fazerem companhia às suas esposas que também esperam tristes e sozinhas em suas camas vazias. Homens e mulheres que homeopaticamente enlouquecem sem gritar por ajuda com seus ossos envelhecidos como navios prestes a virar sucata.

E eu abri e fechei os olhos, muitas e muitas vezes. E todas as vezes que eu fechava eu via os trilhos e via Elina Löwensohn, e via as pessoas sorrindo no baile de carnaval.

E me vi incontestavelmente sozinho segurando a taça de vinho vazia.

Tão melancólico quanto as luzes de um parque de diversões se apagando.

Mário Bortolotto

Verão de 2016

*Crazy Train é um rock gravado por Ozzy Osbourne, de autoria de Ozzy, Bob Daisley e Randy Rhoads.

Agradecemos pela leitura do nosso conto.

,Sobre os autores:

Mário Bortolotto é ator, diretor, dramaturgo, escritor e compositor, vocalista da banda Saco de Ratos Blues e fundador do grupo Cemitério de Automóveis. Dos mais atuantes autores brasileiros, Bortolotto imprime em seus trabalhos uma linguagem popular, direta e dotada de grande percepção social.

Instagram: @mariobortolotto

Marcelo Freitas é tatuador e ilustrador autoditada , diversificado em vários aspectos de arte em geral. Sempre buscando a evolução e transmutação do seu trabalho.

Instagram: @marcelofreitasart

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