,A internet em 2030

Por Marcio Tito.

Revisão: Aline Machado

Obra de Mathieus Pierre - Série ClickBait
Obra de Mathieus Pierre – Série ClickBait

Quando nos apaixonamos por alguém, quase sem querer, pensamos em como é que estamos vivendo aquela paixão e para onde é que ela nos levará.

O que fará de nós “o amor”?

Quando amamos, realmente sem querer, imaginamos o que é que aquele amor constrói na gente e como é que habitamos essa construção incontrolável (cuja decisão nos escapa, cujo começo e o final não estão inteiramente em nossas mãos).

É um “defeito” de fabricação, um “bug” daquilo que desejamos para nós.

Estando ou não confortáveis em determinada situação, queremos sempre compreender a forma que agimos no presente para melhor entendermos qual futuro nos aguarda (ou melhor, gostamos de imaginar o futuro enquanto resposta àquilo que manipulamos em nossas escolhas do passado, logo, avaliamos e julgamos cada uma das nossas atitudes).

Uma parte do nosso cérebro funciona dessa maneira: Capta, seleciona, organiza, interpreta e reinterpreta, omitindo ou não, de modo explícito ou oculto, informações de todas as espécies e dos mais variados graus de complexidade.

É assim que os nossos cérebros têm sido capazes de nos manter vivos dentro de um mundo hostil e trabalhoso. Logo, diante do sucesso que é estarmos vivos, podemos dizer que essa necessidade de emprestar significado a todas as nossas atividades e afetos é mais do que natural, pois tem se mostrado essencial e indispensável para seguirmos a aventura de estarmos vivos e saudáveis num planeta repleto de perigos e animais sempre maiores e mais velozes do que nós.

Ao entramos na faculdade, ao arranjarmos um emprego e depois de empregados também. Diariamente interpretamos as coisas incontroláveis.

Quando alugamos, compramos ou vendemos uma casa, embora pensemos e até sintamos estar no controle daquele contrato – porque somos gente, no fundo – sabemos que estamos apenas agindo de modo desesperado. Estamos em busca de um futuro menos ruim que o presente e aceitamos qualquer aposta que nos deixe experimentar um instante de “controle” sobre as variantes da vida.

Quando perdemos a virgindade ou a tiramos de alguém, foi da melhor forma, com a melhor pessoa ou no espaço ideal? Jamais saberemos.

Ainda assim, jamais deixaremos de nos fazer essas perguntas que não existem apenas para nos torturar, mas que também nos orientam na busca de um futuro mais ligado àquilo que intuímos ser o que mais desejamos, dentre as tantas coisas que queremos e, sobretudo, dentre as inumeráveis coisas que nos acontecerão sem que tenhamos o menor direito de escolha ou opinião.

Qual impacto o nosso modo de fruição das coisas empresta ao nosso futuro?

O futuro nem existe e mesmo assim está sempre adiante. Nos aguardando de modo inclemente e ao gosto do “cliente” ou não, o futuro nos entregará exatamente aquilo que projetamos no passado. E é por isso que estamos sempre desesperados em compreender o que é que as coisas realmente significam enquanto as vivemos por impulso ou dever.

Ler esse texto, no tempo presente, como é que interfere no futuro que o aguarda?

Ainda assim, ao iniciar a leitura é claro, você tomou algum tipo de decisão mediada pelas infinitas possibilidades de sim e de não, e só prosseguiu na leitura porque alguma coisa apitou e disse – Talvez este texto melhore as coisas para você, leia.

É provável que você tenha clicado aqui porque prefere estar informado a estar desinformado, ou porque prefere saber a não saber e, mais curioso ainda, talvez você quisesse acessar esse texto para conhecer algo que tem consciência de desconhecer, ou seja, existe sempre uma fração impossível nos empurrando adiante.

Por alguns instantes, curtos talvez, mas ainda assim demoradíssimos porque vitais, por intuição, quase nunca escapamos a produzir uma dezena, centena ou milhar de possibilidades.

Essas possibilidades todas, isso sempre, terminam com a mesma indagação: – Será que estou vivendo da melhor maneira possível? Poderia ter lido outros textos ao invés de estar lendo este? Seria melhor ou pior?

Será que esta é a dieta ideal, a esposa ou marido ideais, a carreira, a religião, o amigo ou a amiga ideal?

Se nos perguntamos essa mesma pergunta tantas vezes, e se essa questão é tão importante para compreendermos quem somos, e para sabermos quem somos definimos a coerência de nossas vidas, o que ainda nos impede de fazermos essa pergunta para explicarmos a nossa forma de interação diante de uma das maiores criações de todos os tempos?

Assim como pensamos aonde é que nos levará um amor ou uma profissão, e nos enxergamos lidando com a vida dentro desses contextos possíveis, por que é que ainda não nos perguntamos o que estamos realmente fazendo aqui dentro da internet?

Interagindo, nos autoafirmando, trabalhando 24 horas por dia nos nossos portfólios?

Postamos o que desejamos ou desejamos postar o que alguém desejaria que postássemos?

Definitivamente o capitalismo tomou os meios de expressão e agora estamos aqui pensando em como é que nos transformaremos em empresas de nós mesmos ou, numa inocência que nos faria chorar diante da tela, estamos mesmo interagindo e buscando um mínimo contato com a afetividade do outro?

Após nos sentarmos diante de um “banquete de consequências”, querendo ou não, precisaremos decidir qual será a nossa posição diante dessa maravilha devoradora de tempo.

Hoje, por pelo menos dois minutos, pare e pense nos motivos que te levam a acessar viciosamente o Facebook e o Instagram.

Ou por qual razão você passou a pensar mais curto para caber no Twitter.

E porquê o seu quarto parece abrigar tantas fotos incríveis, se bem tiradas, para o seu feed nessas redes sociais.

E quem é você quando captura o sorriso de alguém para um story, ou quem é a pessoa amada quando captura um boomerang contra o trânsito de uma avenida movimentada?

Por que você corre pela manhã?

E vai para a academia, e cortou a carne vermelha e cogita o veganismo?

Por que você ainda não encontrou alguém melhor que seu ex ou sua ex?

Por quê?

Por que você vota em determinada pessoa?

Essas questões são em maior ou menor medida bastante corriqueiras.

Correr, comer carne e votar são partículas antigas dentro de culturas mais antigas que essa nova e nem tão nova experiência digital. Mas já são quase 25 anos de internet banda larga no nosso país – que lidera os países emergentes!

Chegou a hora em que você apenas parará de se esconder atrás da falta de tempo e da rotina, das pautas globais e dos amigos que precisam de efeitos especiais diários (como álcool, sexo casual e likes) e aí você terá um profundo encontro consigo dentro da comunidade digital (e talvez esse encontro envolva álcool, sexo casual e likes, mas a importância disso tudo estará na sua tomada de consciência acerca do consumo desses itens).

É claro que você será absolutamente idiota nos primeiros instantes e buscará fugir do problema. Como todo viciado faz. Dirá que poderia deletar a sua conta, caso sentisse que isso está afetando a sua saúde, ou a sua vida ou a vida dos outros. Dirá que está aqui para se informar ou trabalhar, mas talvez você ignore sermos uma das gerações mais confusas e que menos descobertas fez num início de século e milênio.

Dirá que nem posta tanto assim, que nem acessa tanto assim, e que nem se importa tanto assim, e que há meses evita ou não vê os stories de alguém que te fez promessas no passado.

Mas então você parará por alguns instantes e, quem sabe, com um pouco de boa vontade, buscará rememorar qual sentimento te exigiu que postasse aquela frase “afrontosa”, aquela foto combativa, ou aquele tweet ácido.

Finalmente haverá um encontro responsável e humano entre você e uma das maiores criações da humanidade. E você se fará a pergunta essencial: “O que é que estou buscando aqui na internet? Todos os dias, todas as horas, em todas as formas de interagir e participando de todos os momentos dela”.

O que é que você está buscando na internet?

Eu já me perguntei isso.

A pergunta seguinte foi: – Por é que eu ainda não encontrei?

Agradecemos pela leitura do nossa ensaio.

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