,Videodança: Qual Pele Me Reveste?

Por Karen Eloise.

Revisão: Aline Machado

Foto: Divulgação. Qual pele que me reveste?
Foto: Divulgação.

Na década de 1940 surge o termo “videodança”, um processo artístico que mistura dança a recursos audiovisuais na captação de movimentos. A obra Um estudo coreográfico para as câmeras (1945), criação da artista Maya Deren (1917-1961), considerada uma das pioneiras nesta modalidade, explora o movimento, as relações de tempo e espaço, iluminação e edição de vídeo. No Brasil, a coreógrafa e videomaker Analivia Cordeiro (n.1954), em parceria com a TV Cultura, desenvolveu a obra “M3x3” (1973), período em que os aparelhos de videocassete ainda não eram comercializados no país. A obra trabalha os corpos e os movimentos dos bailarinos em espaços desenhados com formas regulares, explora os contrastes do preto e branco, repetição do som (de maquinário industrial) e também faz uma crítica ao início da era da digitalização na sociedade.

Atualmente existem diversos festivais que prestigiam a videodança em todo o país com apoio de universidades (como a UNICAMP) e a rede SESC São Paulo, que já viabilizou projetos como: Bienal Sesc de Dança, Dança em Foco – Festival Internacional de Vídeo & Dança e o Mirada (Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas).

Devido a pandemia do coronavírus, muitos festivais e projetos que estavam em andamento ficaram congelados. Muitos artistas, atores, coreógrafos e bailarinos precisaram se reinventar diante de um novo cenário onde os teatros foram todos fechados. Com o isolamento social, também cancelaram eventos, turnês, filmagens. Temos em vista que entre tantos ofícios, o setor artístico foi um dos mais impactados pelas medidas de seguranças adotadas pelo governo desde março de 2020.

Encontros na plataforma Zoom. qual pele me reveste?
Encontros na plataforma Zoom.

Em julho de 2020 foi realizada a oficina “Qual pele me reveste – conversas sobre videodança em tempos de isolamento social”, adaptada dentro desses novos moldes e conseguiu reunir 13 mulheres de diferentes regiões do Brasil em um processo inteiramente virtual. A partir do conto Pinkola Estés, “Pele de Foca, Pele da Alma”, que conta a história de uma mulher-foca que tem sua pele roubada por um homem que, para tê-la de volta, precisa casar-se e ter filhos. Com o passar dos anos, essa mulher vai perdendo seu brilho por estar sem essa pele e se depara com o dilema de voltar às suas origens nos mares, ou continuar na vida que um homem escolheu para ela.

Todo o processo foi realizado por meio da plataforma Zoom, com quatro encontros de 1h30, sempre aos sábados. O módulo introdutório permitiu que cada uma das participantes ­– selecionadas previamente por meio de uma carta de intenção – pudessem se apresentar e contar as experiências de vida (não necessariamente com a dança) que trouxeram até a este encontro. Percebeu-se que as participantes traziam histórias distintas, porém com o mesmo desejo de explorar o corpo e conduzi-lo a um experimento artístico. Hassegawa descreve a forma como ela vê a relação do digital como um novo processo relevante ao fazer dança contemporânea:

“O público agora pode apreciar as danças na palma da mão com muito mais frequência. É notável por exemplo a quantidade de Reels no Instagram superdançantes e a profusão do TikTok que alcança a margem dos 800 milhões de usuários no mundo ao longo do isolamento social, uma ferramenta de dança para o vídeo.”

Cenas de cada participante na videodança: "Qual Pele Me Reveste?".
Cenas de cada participante na videodança: “Qual Pele Me Reveste?”.

No segundo encontro, Hassegawa apresentou o histórico da videodança e exemplos de processos artísticos que contribuíram para o crescimento desse segmento nos circuitos culturais a partir de experiências da própria e de algumas das participantes.

No terceiro encontro discutimos o texto da Pinkola Estés e as possibilidades criativas que poderíamos ter a cerca deste texto, e a forma como ele tocou individualmente cada uma das participantes. Muitas relataram que, em algum momento, se desconectaram de suas “peles”, que a pandemia havia trazido novas reflexões sobre a solidão, a relação com o uso do tempo, e até mesmo a morte pois, na atualidade, tivemos que nos deparar com essas questões tão pungentes.

Foram iniciados os processos de transformar todos estes anseios em arte, em dança, em conexão com o seu corpo (ou com do outro). O processo criativo era livre, porém era necessário criar uma unidade visual. Com a ajuda do diretor visual, Vinícius Cardoso, que apresentou possibilidades para explorar enquadramento de câmera, diferentes usos de iluminação, ângulos, efeitos, e principalmente, que fosse compartilhado por grupo de WhatsApp, os “cantos preferidos da casa”.

Processos criativos: estudos de iluminação, enquadramento e ângulo de câmera.
Processos criativos: estudos de iluminação, enquadramento e ângulo de câmera.

Ficou estabelecido também que seriam utilizados figurinos com cores quentes ou a ausência dele. A proposta era de que estes corpos vibrassem e, junto aos elementos cênicos do canto de cada casa, houvesse uma harmonia luminosa que transpirasse a essência dessas figuras femininas refletidos no vídeo. Hassegawa reitera ainda que:

“Diante desta estrutura cênica online havia/há outra reflexão principal às nossas frágeis humanidades, os corpos retidos em seus ninhos (ou não, para as que não podem), mas carregado de melindres e pensamentos à exaustão e valia neste caso um ponto de atenção: as mulheres.”

O processo também transpõe a preocupação da artista em relação ao papel da mulher na sociedade que atuam como maioria dos profissionais na área da saúde, e o crescente número de casos de violência doméstica, principalmente neste período de confinamento.

Todos estes questionamentos, medos e anseios, foram expressados por meio da linguagem da dança, que acompanhou intimamente 13 jornadas introspectivas, mas que, juntas, se potencializaram neste encontro inusitado e surpreendente. Que nunca nos dispamos das nossas peles de foca, que haja sempre o brilho nos olhos daqueles que fazem arte.

Referências Bibliográficas:

GOLDBERG, RoseLee. A Arte da Performance. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

M3x3. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=EEGpBjT57lU&gt;. Acesso em: 22/06/2019.

PINKOLA ESTÉS, Clarissa. Mulheres Que Correm Com Os Lobos. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1992.

PORTINARI, Maribel. História da dança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

Agradecemos pela leitura do nosso ensaio.

,Sobre as artistas:

Vanessa Hassegawa é pesquisadora de dança da Amazônia paraense, curadora, artista do campo da videodança e relações públicas atuante. Em sua formação acadêmica é mestranda do programa de Pós-Graduação em Artes da Cena pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, especialista em Artes Cênicas pela Faculdade Paulista de Artes e bacharel em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade da Amazônia.

Instagram: @vanessa_hassegawa

Karen Eloise Shimoda, Mestranda em Design pela Universidade Anhembi Morumbi, pesquisa a relação entre a Dança Contemporânea e o Design Gráfico. Graduada em Comunicação Social pela mesma universidade (2006) e pós-graduada em Design Gráfico pelo Centro Universitário Senac (2010). Atriz, formada pelo Teatro Escola Macunaíma (2013).

Instagram: @keshimoda

Ficha Técnica:

Idealização e direção geral: Vanessa Hassegawa

Direção Audiovisual: Vinicius Cardoso

Edição e Finalização: Vinícius Cardoso

Trilha sonora original: Lucia Esteves

Co-direção e coreografias:

Barbara Ivo (Olinda-PE)

Carol Natal (Itaipava- RJ

Danieli Bertolami (São Paulo – SP)

Duna Dias (Belo Horizonte-MG)

Gabriela Leite (Florianópolis- SC)

Irupé Sarmiento (São Paulo – SP)

Karen Shimoda (São Paulo – SP)

Liduína Lins (São Paulo – SP)

Luci Savassa (São Paulo – SP)

Maura Muller (São Paulo – SP)

Marie Bueno (São José dos Campos -SP)

Paula Davis (Belo Horizonte -MG)

Patricia Pina Cruz (São Paulo -SP)

Coordenação: Vanessa Hassegawa.

Período de exibição: De 1 a 31/10 – Disponível para assistir em qualquer horário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s