,O conceito de posição: o infantil no adulto para Melanie Klein

Por Tássia Borges.

Revisão: Aline Machado

Eliseu Viscontini - O Colar (1922)
Eliseu Viscontini – O Colar (1922)

Resumo

Este trabalho apresenta uma reflexão sobre o infantil no adulto a partir do conceito kleiniano das posições, a saber: esquizoparanoide e depressiva.

Introdução

A ideia de infantil em contraposição à infância se faz uma distinção necessária, assim, pode ser interessante entender como seria a articulação entre o infantil e o adulto para Melanie Klein por meio da teoria das posições.

Posto isso, vamos apresentar de forma incipiente como se percebem demonstrações do infantil no adulto sob o pensamento kleiniano e também delinear os conceitos-chave da relação de objeto e posições (esquizoparanoide e depressiva).

A articulação deste artigo começará com a visão de Klein e seus leitores sobre o infantil e como se apresenta no adulto. Logo após, o conceito de posição e o aclaramento de cada posição (esquizoparanoide e depressiva) especificamente. E, por fim, uma breve cogitação sobre o indivíduo adulto em cada posição.

O infantil para Melanie Klein

No terceiro capítulo do livro “Melanie Klein: estilo e pensamento”, intitulado Apreciação introdutória do estilo de pensamento e de escrita, Cintra e Figueiredo elucidam que a distinção entre infantil e infância faz parte do percurso textual e conceitual de Melanie Klein. Em princípio, sobre o infantil e infância, o texto diz:

“A ‘criança’ é uma categoria eminentemente temporal: a criança está no tempo e, por isso, um belo dia a infância já ficou para trás. O ‘infantil’ permanece, embora ele também seja objeto de transformações e elaborações.” (Cintra & Figueiredo, 2010, p. 55).

Pode-se inferir com esse excerto, ainda, que para Klein, o infantil está presente no adulto e faz parte do processo analítico. É possível articular o infantil e o psiquismo do adulto, havendo uma via entre essas duas realidades. Questões que podem ser consideradas do adulto são, na realidade, conteúdos infantis emergindo. Elisa Cintra fala em seu texto intitulado Breve Panorama da Obra de Melanie Klein. Pensar as Feridas sobre esses conteúdos infantis que atravessam o adulto, dentre eles: amor, frustração, desejos e ansiedades.

“Demanda grandiosa de amor absoluto, urgente, irrealizável, destinada à frustração: é isso que Klein considera o caráter ‘infantil’ – isto é, insaciável – de todo desejar humano em sua fonte mais inconsciente e arcaica – ponto de nascimento da angústia, das ansiedades mais primitivas e difíceis de atravessar.” (Cintra e Ribeiro, 2018, p.35).

Com isso, é plausível pensar que a emergência da demanda infantil (des)atualizada pode levar o adulto à procura de terapia ou de outras formas de conhecer a si mesmo.

O conceito de posição

A palavra “posição” como um conceito, nesse sentido vinculado à relação do indivíduo com o objeto, foi dita pela primeira vez por Melanie Klein em 1935, no texto Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos (1991, p. 306)[1]. Ela apresenta a ideia de posição depressiva primeiramente em desacordo à ideia de que falaria antes da posição esquizoparanoide por se tratar de uma posição anterior à depressiva no processo de desenvolvimento.

[1] Busca pelo termo no primeiro volume das Obras Completas de Melanie Klein da Imago (1991).

Pode-se compreender que posição seria uma forma de funcionamento psíquico e cada uma apresentada por Klein possui características e experiências específicas. Cintra destaca as posições como formas de funcionamento psíquico:

“Ela, como vimos, volta a· sua atenção para as posições esquizoparanoide e depressiva, que são configurações daquilo que está sempre sincronicamente em jogo no funcionamento psíquico em um dado instante, ainda que a dominância possa estar em um ou outro dos dois polos.” (Cintra & Figueiredo, 2010, p. 147).

Além disso, “posição” seria uma forma de Klein observar o desenvolvimento, trazendo uma certa dinamicidade e indo além da ideia de fase ou estágio no processo de desenvolvimento. Interessante a palavra “posição” também no sentido de “denunciar” como o sujeito lida com suas questões e onde ele busca se colocar diante das situações. Continuando com Cintra:

“Mas eles sempre corresponderão a uma das matrizes das experiências de um indivíduo, mesmo adulto e relativamente “normal”. Estamos nos referindo à posição esquizoparanoide que vem a ser, junto com a posição depressiva analisada nos textos de 1935 e 1940, uma das dimensões do infantil na sua permanência e irredutibilidade e que opera na mente do homem independentemente de sua idade.” (Cintra, 2010, p. 102).

Adotar-se-á aqui, a título de didática e linearidade de raciocínio, uma breve apresentação da posição esquizoparanoide inicialmente e por conseguinte a apresentação da posição depressiva, mesmo sendo diferente do processo teórico de Melanie Klein.

Posição esquizoparanoide

A posição esquizoparanoide, como o termo sugere, explicita características de divisão (esquizo) e persecutoriedade (paranoia). Com a leitura sobre o conceito, destaca-se a importância de distinguir a posição desenvolvida por Melanie Klein do transtorno característico de algumas condições patológicas. Essa posição seria uma primeira forma de funcionamento psíquico.

A divisão inicialmente se daria em dois polos: um lado positivo baseado em satisfação e prazer em que tudo é bom; um lado negativo com sensação de punição e desprazer. Em termos de Melanie Klein: seio bom e seio mau, respectivamente. Essa polarização se trata de um mecanismo arcaico coincidindo com a sensação de. Nas palavras de Cintra:

“No início da vida psíquica, predomina o funcionamento da posição esquizoparanoide com seus mecanismos ativos que levam ao apagamento do desprazer e da experiência de rejeição afetiva e abandono, em favor da permanência do sentimento de ser plenamente amado.” (Cintra, 2018, p.55).

É possível pensar que essa polarização tem como função afastar as experiências ruins e manter apenas aquelas boas. A citação acima também permite observar que a sensação de ser amado é diretamente relacionada a sensações prazerosas. Ainda, o que é ruim traz o senso de rejeição, punição e perseguição, o lado paranoico do termo.

Posição depressiva

A posição depressiva assim como a esquizoparanoide carece de distinção. Isso porque o termo “depressivo” pode se referir à depressão, uma condição patológica, ou seja, a doença. Melanie Klein utiliza esse termo para se referir a uma circunstância subjetiva em que a realidade ganha protagonismo em relação à fantasia, trazendo sensação de perda. Tal experiência de perda pode ser vista como dolorosa e por isso carrega esse termo. Cintra explica:

“Essa posição chama-se ‘depressiva’ porque nela se cumpre um processo de luto: perdem-se os aspectos ideais das pessoas e as representações mais radicais que exigem tudo/absolutamente bom para aceitar e enraizar em si representações de que é possível receber algo, um pouco, uma parte; tudo não é possível. Morre a criança magnífica, surge uma nova subjetividade.” (Cintra, 2018, p.56) [grifo da autora].

A onipotência que carrega a necessidade de tudo estar bom o tempo todo ao se desfazer cede espaço para o que é possível, portanto, um poder ser. A nova subjetividade supracitada atravessa não só a perda do que acreditava ser bom, mas também das ansiedades persecutórias que trazem grande sofrimento. Perdem-se coisas, mas ganham-se outras.

Em contraponto à posição esquizoparanoide, o objeto visto neste estado é integral, as coisas assumem um caráter mais amplo a abrangente. A nova realidade subjetiva permite lidar com as situações sob diferentes e diversos prismas. Com mais alternativas, contempla-se um equilíbrio e caminho de meio termo em oposição à polaridade anterior. Sobre isso:

“Com o tempo, a posição depressiva leva a uma confluência entre amor e ódio: os objetos já não são percebidos como exclusivamente bons nem maus; relativizam-se todas as atribuições de valor positivo e negativo às pessoas e a si próprio.” (Cintra, 2018, p.56).

Conceito de posição: uma visão do infantil no adulto

Com esse percurso é possível observar o funcionamento das posições kleinianas em indivíduos adultos. Pessoas conhecidas, personagens da literatura, do cinema ou até mesmo programas de televisão ou streaming podem ser figuras para exemplo.

Pensando em posição esquizoparanoide, a figura de “vilã(o)” e de “mocinha(o)” evidencia a polarização de tal posição. Isso porque possuem em seus comportamentos e visões de mundo apenas um lado da “moeda”. Não raro é possível ouvir no discurso de uma pessoa a setorização de seus objetos como bons ou maus. Inclusive as redes sociais hoje promovem essa reação com likes ou deslikes.

Em termos de posição depressiva, seriam aquelas pessoas que lidam com as situações de forma mais concreta, sem a excitação do vilanismo ou do endeusamento. Compreendem as coisas mais como são do que como deveriam ser, visam à resolução dos problemas e não os problemas em si. Já abandonaram a visão onipotente, inclusive lidam mais com a impotência e com resiliência.

“Isso mostra que estamos nos referindo a desejos e ansiedades em sua dimensão inconsciente e fora do tempo, como possibilidades latentes ao longo de toda a vida que podem ser revividas na idade adulta. Encontram-se, portanto, fora do tempo cronológico em uma temporalidade mítica, das origens e do originário, que permanece como um núcleo vivo, capaz de vitalizar ou obturar a abertura às experiências afetivas”. (Cintra e Ribeiro, 2018, p.37).

Considerações Finais

Melanie Klein propõe uma visão diferente de observar a presença do infantil no adulto com a teoria das posições. Com esse texto foi possível vislumbrar ainda outras vinhetas em que a autora articula o infantil com o adulto.

Referências

Cintra, E. M]. de U. (2018). Klein e os primeiros mil dias. In C. Affonso, P. Peron, & R. C. C. de Carvalho (Org.) Sujeitos da psicanálise: Freud, Ferenczi, Klein, Winnicott e Bion: diálogos teóricos e clínicos. São Paulo: Escuta.

Cintra, E. M. de U., & Figueiredo, L. C. (2010). Melanie Klein: estilo e pensamento. 2ª. Ed. São Paulo: Escuta.

Cintra, E. M. de U., & Ribeiro, M. F. R. (2018). Por que Klein? D. Kupermann (Coord.) São Paulo: Escuta. (Trabalho original publicado em 2007).

Klein, M. (1991). Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos. In M. Klein, Obras Completas de Melanie Klein, Vol.1: Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos: 1921-1945 (p. 306). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1935)

Agradecemos por ler o nosso artigo.

,Sobre a autora:

Tássia Borges é Psicanalista Freudo-Kleiniana. Graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), trabalha com educação e linguagem há mais de 18 anos. Atualmente, coordena e ministra o Curso de Psicanálise Kleiniana e o GEMK. Atua como psicanalista e supervisora freudo-kleiniana. Possui formação em psicanálise freudiana e conhecimento das escolas inglesa e francesa. É coordenadora de Metodologia de Estudo e Pesquisa do Gepech e como professora convidada, é docente em escolas de psicanálise em São Paulo e Rio de Janeiro.

Instagram: @tassiaborgespsicanalista

Site: tassiaborgespsicanalise.com.br

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