.Um resgate afetivo! – Com Marcelino Melo

Por Marcio Tito.

Revisão: Aline Machado

O artista procura nessa perspectiva o equilíbrio. Uma quebradinha bem sucedida!
O artista procura nessa perspectiva o equilíbrio. Uma quebradinha bem sucedida!

Quando vi o elegantíssimo e refinado trabalho do @quebradinha_ nas redes, antes do aplauso mental, veio um certo desconforto. Naquele instante eu entendia que estavam cercando sua obra com palavras que não surgiam para completar o significado daquele criativo e, pior ainda, na maioria das vezes inscrevia o material em uma articulação menos poderosa e muito mais simplista. Miniatura. Maquete? Céus! É a escultura de um escultor extraordinário! – pensei.

Assim, indignado com a falta de lugar que os comentários no Facebook vinham elaborando ao fazer desse artista, fui lançado ao apetite de confrontar os nossos dicionários e inscrever de fato as casinhas em seus lugares de direito.

A entrevista inteira se deu seguindo esse intuito. Eu estava perdidamente obstinado em conversar não com alguém que fizesse essas bem arquitetadas “Casinhas” e depois fosse dormir tranquilo. Eu queria encontrar e saber da realidade deste trabalho, sobretudo, para termos grafada em texto a voz desse artista que, explicitamente obcecado, claro, seria incapaz de parir tal trabalho e simetricamente não lançar também um parecer humano tão sofisticado quanto.

O Marcelino Melo, o Nenê, o Menino do Drone, o @Quebradinha_ de fato e acima do fato da obra, elabora um panorama lúcido e amplo, social e estético. Afetivo e poético.

É, sem dúvidas, um jovem e grande artista brasileiro!

@Quebadinha_ – Ôh mano, vamos lá! Primeiro o meu nome – Eu sou Marcelino Melo, o Nenê, o Menino do Drone, o @Quebradinha_. Esses nomes aí! Olha… Eu até vou ser bem sincero: Não gosto quando chamam de maquete, miniatura. Maquete é pra vender prédio, apê, móveis planejados. Diorama também. É um bagulho de brinquedo… Eu prefiro mesmo que chamem de escultura! Me coloca em um lugar mais amplo, da abordagem artística de fato, tá ligado? Valoriza de fato. Não gosto de maquete, mas tudo bem também!

MT – Como começou?

Marcelino – A primeira “Casinha” foi despretensiosa. Lógico não por acaso! A partir da questão audiovisual, de fotografias aéreas, que eu tenho um trampo chamado “Menino do Drone”, eu trabalho a estética visual periférica, mas aérea! Aí eu tive umas férias e resolvi fazer. Nada sério, mas eu tava provocado havia um tempo. Eu fiz uma caixa d’água com uma tampinha de desodorante. Achei da hora. Fiz o telhadinho. Aí sim resolvi fazer a casa (porque tipo já tinha o teto). Aí eu curti, achei da hora e continuei. A segunda Casinha foi em janeiro. Ganhou nome, ganhou o Instagram e tamo aí hoje!

MT – Você tem alguma formação em Artes Visuais? Sua técnica é super organizada, você usa cores e formas exatas!

Menino do drone – Mano, eu não tenho formação em artes. Acho até que isso não precisa. Tenho formação de rua, do sentir, eu falo isso sempre – a prática da coisa. Você entende, é artista também. O sentimento parte da prática e vice-versa, e a academia nem é tão próxima do fazer em si. Eu tenho intimidade com o lance de produzir. Sou produtor de audiovisual! Tenho a produtora “Fluxo Imagens” em parceria com meu irmão, aqui na Zona Sul. Tenho também as fotografias da quebrada feitas com drone, sou arte-educador nas fábricas de cultura também. E o artista é isso aí – um produtor de coisas. Troca de ideias com amigos de rua é o que dá vazão ao que veio a ser a quebradinha.

O artista. Retratado por Léo Britto
O artista. Retratado por Léo Britto

MT – Em vista da repercussão, claro, aparecem comentários que às vezes completam o que você projetou e falas que vão numa direção contrária… O trabalho está vivo. Você fez e aconteceu. Comenta aí algumas falas que te tocaram.

Nenê – Pode crer. Tá tendo uma repercussão interessante, sinal de que é bom! É difícil pensar o que você pediu, mas lembrei de uma Live que eu tava e o mano teve a genial ideia de dizer para eu sortear uma casinha e o ganhador só arcar com o frete! Foi bem nada a ver, mas foi engraçado. Aí eu dei risada – Caramba mano, olha o tanto de sentimento e olhar que é investido pra eu te mandar assim do nada! Mas vai ver o cara nem falou numa intenção zuada. Teve uma mulher que morava numa quebrada em Embu das Artes e agora mora na França com a família. Foi realizar o sonho da casa própria lá. Aí ela viu o @quebradinha e vieram memórias afetivas pra ela e pra família dela. Ela tem uma irmã que já nasceu na França e aí uma casinha que eu fiz era parecida com uma casinha que ela morou aqui. E usaram pra mostrar pra irmã que nem conhece o Brasil. Tipo um resgate afetivo.

Sofisticação e equilíbrio. O interior de uma quebradinha!
Sofisticação e equilíbrio. O interior de uma quebradinha!

MT – Quantas camadas! Incrível. Cara, eu percebi que você tem um cuidado insano com a paleta de cores. O amarelo da placa do bar, a geladeirinha da Budweiser… É incrível. E como você falou do tempo que leva, do olhar… Em média cada Casinha exige quanto do seu tempo e como é a pesquisa para colorizar o trabalho?

Marcelino Melo – O tempo varia. Uma média de dois meses fazendo, mas teve casinha que fiz em menos. Tem uma que tô há 4 meses fazendo! Esse nascimento, tá ligado? Depende do processo criativo. Tento ser o mais orgânico possível, tá ligado? Das cores é isso. A paleta que a quebrada tem de fato! E você vê isso nas cores. Tento fazer o máximo que eu consigo. Eu vou no olhar. Aí eu vejo o que falta e procuro equilíbrio. Cor quente, cor fria, claro, escuro. Eu gosto quando olho porque tem equilíbrio. Enquanto não tiver equilíbrio eu não paro. E é isso.

Marcelino posa com uma das casinhas - por Léo Britto
Marcelino posa com uma das casinhas – por Léo Britto


MT –
Suas respostas estão sendo profundas e completas demais! Para terminarmos: Como você gostaria que as pessoas sentissem esse trabalho?

@Quebradinha_ Cê é loko, só agradece! Da hora! Eu gostaria que as pessoas tivessem o @quebradinha_ num lugar de afetividade, um lugar de lembrança, mas não só! Como uma espécie de depósito, um lugar de guardar memória. É uma forma de guardar isso. Mandar para alguém lembrar de algum lugar. Num lugar artístico, né mano? Mas um doce de memória. De afetividade, tá ligado?

Obrigado por ler a nossa entrevista.

@quebradinha_

@menino_do_drone

@fxo_midia

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